Morbidez que revolta


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Qual será a atração mórbida de um corpo dilacerado, destruído? Ou uma necropsia de um ser humano morto em violento acidente de carro? É uma situação que, ainda hoje, afeta um grande número de pessoas e que, para outro tanto, só causa revolta. A disseminação das imagens do cadáver do cantor Cristiano Araújo e de sua namorada, Alana, mortos em violento acidente de carro dias atrás, chama a atenção pela rapidez como as fotos dos corpos (não apenas no local do acidente, mas também depois, até a colocação do cantor no caixão), junto com o vídeo da necropsia realizada no corpo de Cristiano, se espalharam pelas redes sociais. A multiplicação das postagens mostra que ainda há muitos que se deleitam com a desgraça humana e com imagens que deveriam causar repulsa.
 
Porém, a situação se repete nos últimos anos, depois que a Internet se tornou uma verdadeira ‘terra de ninguém’, onde se postam desde imagens de deformações congênitas até de vítimas de acidentes de trânsito. A fama de Cristiano Araújo só tornou mais evidente a visualização das imagens. Mas no mesmo dia, nas redes sociais, foram postadas as fotos de duas jovens anônimas que estavam em um carro no qual um micro-ônibus colidiu, mostrando em close as graves mutilações que ambas sofreram. Antes disso, em várias ocasiões, houve quem teve o estômago de divulgar fotos chocantes de pessoas destroçadas, aparentando um prazer mórbido em compartilhar algo que a maioria dos usuários da rede de computadores não gostaria de ver.
 
Há quase vinte anos, quando o grupo Mamonas Assassinas morreu num acidente de avião, mesmo com a Internet ainda não disseminada como hoje, muitos procuravam as fotos dos cadáveres. Aí, os e-mails passaram a receber mensagens com o link para as supostas imagens que não passavam de vírus que apagavam todas as informações do disco rígido do computador. Muita gente perdeu tudo o que tinha arquivado. A partir daí, vários outros hackers criaram ameaças graves aos computadores alheios, na maioria das vezes aproveitando-se da morbidez humana pela visão de atrocidades, cadáveres e mutilados.
 
Hoje a violência, que se tornou banalizada em filmes, atrações de TV e, principalmente, programas jornalísticos, está em alta e, muitas vezes, até acaba ressaltada. A audiência do chamado mundo-cão na televisão reflete esta inversão de valores, onde a beleza se torna menos atraente do que o pavor. Não é possível que uma sociedade que busca satisfação na tragédia do seu semelhante consiga fazer frente aos tempos difíceis que atualmente vivemos, com ataques violentos motivados por diferenças religiosas, culturais, de raça e de gênero. É com bastante desânimo que o cidadão de bem vislumbra o nosso futuro. Enquanto o bom, o justo e o racional não forem mais exercitados, ainda estaremos sujeitos a este tipo de ataque, que nos remete aos primórdios da civilização, quando os instintos primitivos ainda não tinham sido substituídos pela razão. Infelizmente, a sensação é de que estamos regredindo. E isto é muito ruim para toda humanidade.
 
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