Paixão pela comunicação, profissionalismo e empenho para se aprimorar na área são alguns dos termos que descrevem a relação da paulistana Joelma Ospedal, 43, com o jornalismo e, de forma especial, com o jornal Comércio da Franca, que completa 100 anos de circulação ininterrupta nesta terça-feira, dia 30 de junho.
Sua relação com a arte de bem escrever começou cedo e já era notada por professores da Escola Estadual “Professor Colombo de Almeida”, no bairro Casa Verde Alta, instituição onde estudou desde o primário até concluir o ensino médio. Sem ser afetada pelas dúvidas típicas da adolescência, quando os caminhos profissionais estão sendo pensados, ela se conduziu, sem titubear, para o curso de comunicação social da Faculdade Cásper Líbero, referência em jornalismo na capital, onde se formou em 1994.
Com a graduação em mãos e uma vontade extensiva à sua família de construir a vida em um lugar onde a qualidade de vida fosse cenário para os sonhos de vida, Joelma se mudou com a família para Franca, no começo de 1997, incentivada por um primo que havia “se dado bem” na terra do calçado anos antes.
Uma vez instalada, era inerente a vontade da jovem de atuar em sua área de formação. Com um exemplar do Comércio da Franca em mãos, coragem em punho e sonhos de uma carreira promissora no coração, ela se lançou em uma fila com mais de 50 candidatos que pleiteavam uma vaga anunciada no tradicional jornal, que estava às vésperas de completar 82 anos. “Era uma fila enorme, mas nem todos eram jornalistas. Acho que me destaquei na entrevista e fui contratada, em abril de 1997.”
Pronto. Estava dada a largada para uma carreira que a fez circular por todas as funções da redação até alcançar o posto máximo do setor, o de editora-chefe, missão que vem desempenhando com a maturidade dos 18 anos de casa, mas com energia, vitalidade e entusiasmo típicos dos iniciantes na carreira.
Cabe a ela a responsabilidade de coordenar as atividades diárias de uma equipe de aproximadamente 40 profissionais, entre repórteres, fotógrafos, editores, diagramadores, arte-finalistas e designers que produzem para todos os veículos do GCN Comunicação, grupo que edita o Comércio.
A jornalista conta que se orgulha de ter a sua assinatura na efetivação de projetos importantes, como, por exemplo, o que envolveu o plano de carreira dos colaboradores ligados à redação do GCN e a implementação da redação integrada do Comércio da Franca e da rádio Difusora.
Hoje, diante das transformações pelas quais o jornalismo passa, vê o desafio de desenvolver conteúdo para diferentes plataformas como um combustível a mais para o progresso de sua carreira e de sua equipe. Casada há 12 anos com o também jornalista Alessandro Macedo - a quem conheceu na redação do Comércio - e mãe de Pedro, 11, ela se inspira em sua paixão nata pela profissão para efetivar seus projetos no jornalismo.
Como você chegou ao Comércio?
Minha família é de São Paulo, mas havia um primo (de consideração) que morava aqui em Franca e quando o visitávamos, notávamos que ele estava muito bem, muito feliz com a cidade e vivendo com a tranquilidade que queríamos. Decidimos vir. Passei a acompanhar o Comércio. Poucos dias depois, saiu um anúncio contratando repórteres. Preparei meu currículo e fui para a sede do jornal, à época, na Ouvidor Freire. Lembro que era uma fila enorme, com mais de 50 pessoas, nem todos jornalistas. Era uma época de crise, e as pessoas se candidatavam para o que aparecesse. Passei pela entrevista e pelos testes, e fui contratada no dia 1º de abril de 1997.
Você acredita que tenha nascido ou se tornado jornalista?
Gosto de pensar que nasci jornalista. Desde muito cedo sempre fui curiosa, falante, sempre gostei de ler e escrever. Desde pequena gostava muito de brincar assim: escrevia letras em um papel como se fosse um teclado de máquina escrever, brincava de digitar nesse papel. Lógico que nesta época eu ainda não pensava em jornalismo, mas gosto da coincidência. Um fator importante, imagino que tenha sido a fala de um professor do ginásio. Cursava entre o sexto e o oitavo ano. Esse professor, de quem eu gostava muito, Régis Eduardo Camargo Marttelo, e lecionava língua portuguesa de uma maneira muito cativante, me incentivou. Ele não era exatamente um jornalista, mas “tinha um pé” na área de comunicação. Ele dava muita redação, elogiava meu desempenho e foi me dando segurança para escrever. Falei sobre a minha vontade de ser jornalista e ele me falou: “Se você continuar escrevendo assim, será uma grande jornalista.” Acho que a fala dele foi importante para eu me decidir, além, é claro, de todo o incentivo da minha família, especialmente da minha mãe.
Como foi o seu processo de formação até se tornar jornalista e sua consequente profissionalização?
Me tornei efetivamente jornalista na redação do Comércio. O dia-a-dia, a convivência com a notícia, com a rotina de entrevistar, investigar, escrever... Foi aqui que aprendi tudo. Fora isso, o jornal sempre me propiciou grandes oportunidades de aprendizado específico na área. Sempre participei de cursos, oficinas, congressos voltados ao jornalismo. Em 2007 fiz o Master em Jornalismo, um curso de excelência na formação de editores, uma espécie de MBA da área. Fiz o curso em São Paulo (no Instituto Internacional de Ciências Sociais). Viajava duas semanas a cada mês, para um curso muito intensivo. Tudo custeado pelo jornal. É um presente pelo qual sou muito grata e que contribuiu enormemente para minha formação. Pude me dedicar ao meu aprimoramento e, por conseguinte, trazer melhorias para o trabalho da redação.
Como foi o desenvolvimento de sua carreira na empresa?
Cheguei completamente “verde” e aprendi tudo aqui. Foi um aprendizado muito intenso. A família Corrêa Neves (proprietária do jornal) sempre foi muito exigente e eu tentava corresponder. “Seu” Corrêa, quando me contratou, disse o seguinte: “Você sabe como é o jornalismo: você não tem hora pra entrar e muito menos para sair”. E isso não era uma força de expressão. Trabalhávamos, literalmente, dia e noite, e isso não é uma reclamação. Era tanta experiência nova, um desafio a cada dia, um aprendizado diferente a cada matéria... Era uma realização diária e até me emociono em pensar nisso. Era possível fazer tudo na área da reportagem. Eu era muito cobrada, mas tinha grande respaldo por parte dos diretores. Diante disso, pude me desenvolver profissionalmente e o reconhecimento veio na mesma medida. Fui promovida para editora e, alguns anos depois, em 2004, para editora-chefe.
Qual o peso da responsabilidade de ser editora? Sabemos que um editor atua não apenas como jornalista, já que acumula outras “subfunções”, tendo que administrar desde os aspectos econômicos da Redação até as relações interpessoais. Quais os encantos e as dificuldades da função?
Realmente as responsabilidades, quando me tornei editora-chefe, foram se acumulando. Mas o mais difícil não foi lidar com as várias tarefas e, sim, comigo mesma. Meu perfil não é o habitualmente definido para quem ocupa função como a minha, ou seja, não sou exatamente uma pessoa “dura”. E liderar uma equipe grande requer mais firmeza e assertividade do que eu tinha naturalmente. Tive que brigar com a minha própria personalidade, aprender e instituir um tipo de liderança em que tento conciliar meu perfil com as necessidades que a função exige.
Das transformações pelas quais o Comércio passou e que você vivenciou, quais você destaca como as mais importantes?
Nossa! É tanta coisa. O jornal está em constante movimento e estou aqui há quase duas décadas, então, a lista de transformações é grande. Mas, de bate-pronto, destacaria a mudança, em 2007, para a nova (e atual) sede e a implementação efetiva da redação integrada. Foi um avanço e tanto. Esse espaço foi inteiramente pensado para ser uma redação, para integrar a reportagem. Um dos orgulhos íntimos que tenho foi ter contribuído para que a integração fosse possível. Pode não parecer, mas “convencer” os profissionais dos dois veículos - jornal e rádio - que a integração era algo inevitável e irreversível, não foi fácil. Não dava para enfiar “goela abaixo”, mas não tínhamos todo o tempo do mundo para ficar discutindo a respeito. Tínhamos que mostrar os caminhos, mas sei que não é fácil aprender a escrever de uma hora para outra ou desenvolver o talento para o rádio, no caso de repórteres que só escreviam. Foram meses e meses de trabalho. Mas chegamos à integração tão almejada. Ela se concretizou.
Como você avalia o atual momento do jornal impresso no mundo e as novos plataformas de jornalismo?
É inescapável que o jornal impresso está indo para a sua reta final. Isso, todo mundo sabe, diz e afirma. É difícil datar, mas é fato. Mas, o que não podemos perder de vista é que o jornalismo sempre vai existir, independente da plataforma de publicação. O que muda é a forma de fazer, mas o jornalismo não perde a sua essência. No impresso, você tem um tempo para entrevistar a pessoa, ouve, pensa sobre aquilo, escreve, tira dúvidas, corrige. Há a busca incessante pela precisão. No online, a agilidade é implacável, se fizermos esse processo todo, a informação fica velha, não serve para mais nada. O momento é de adequação e aprendizado.
O que o jornalismo é para você e o que representa ocupar o maior cargo de chefia na Redação do Comércio na impactante data do centenário do jornal?
O Comércio é muito presente na minha vida. Ser editora do jornal é de um orgulho enorme, tenho uma honra muito grande. Nesse momento de comemoração, é especialmente bom estar à frente da Redação, dessa equipe valorosa que faz o jornal todos os dias e que, também, está em festa pelo centenário. Poucas empresas chegam aos cem anos. E para uma empresa de comunicação, do interior de São Paulo, atingir essa marca é, sem dúvida, um feito. Tenho um orgulho enorme em dizer que eu faço parte de pelo menos um pedaço dessa história.
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