Se alguém viu a cena, foi incapaz de entender por que, à 1h30 da manhã, a chef do restaurante saía em desabalada carreira pela rua Tiradentes. Talvez algo assustador estivesse a perseguir a pobre. Mas não, ela iniciava o preparo para o jantar especial do Dia dos Namorados e, como não armamos o alarme, a empresa de segurança o fez automaticamente, quase matando nossa chef do coração, que atendendo a um instinto meio louco se achou mais segura partindo para o meio da rua - ao invés de desligar o alarme.
Passado o susto, e alguns preparos depois, um sono tumultuado e preocupado atingia a ela e a mim, porque esse é o tipo de jantar em que a expectativa dos comensais está nas alturas e não podemos errar, sabemos disso. É talvez o dia em que os clientes mais se prepararam para estar em um restaurante, algumas reservas são feitas com meses de antecedência - num ano tivemos uma reserva feita para o outro ano. Então o que o cliente pensa é exatamente isso: vocês tiveram um ano para pensar e se preparar, por isso, ninguém espera pouco.
Antes das 7 da manhã, já estávamos de volta, às 7h40 tirei do forno uma forma imensa de brownie perfeitamente assado, uma coisa linda de se ver. Chamei minha irmã e lhe disse: calma, estamos com sorte, tudo vai dar certo. Sabe aquele dia em que começamos a maquiagem e o primeiro traço do delineador sai perfeito? O batom faz as curvas sem derrapagem? Então, sabemos de antemão que a maquiagem vai ficar linda. Acho que é pela confiança que o ato inicial gera.
Em dias assim, os preparos obedecem a horários determinados, eles são tantos que a cada meia hora, ou quinze minutos, temos que dar cabo de alguma coisa. Assim vamos caminhando sem o risco de sobrar preparo e faltar minutos. Invariavelmente esse é também o dia em que a brigada come pão com mortadela - e de pé. Mas o gostoso de dias assim é que tudo se parece com festa e nós nos situamos num limbo que flutua entre ser convidado ou ser bicão.
Pode-se dizer que todo ano é a mesma coisa, mas esse foi diferente. O frisson lembrou véspera de Natal, a animação superou jogo de Copa, uma graça ver tantos homens armados de presentes, flores libertas ao vento, nas caixas dos motoboys, ou enjauladas nas traseiras das Fiorinos. Enquanto isso, filés, chocolates, peixes, suspiros, legumes sendo preparados para serem apreciados quando, enfim, a correria cedesse lugar ao remanso de uma boa mesa de restaurante.
Pode-se dizer também que o comércio vem primeiro. A isso, eu daria a resposta do filósofo Isaiah Berlin: “creio ser o Romantismo a maior mudança já ocorrida na consciência do Ocidente, foi o maior movimento recente a transformar a vida e o pensamento do mundo ocidental”. Então, num ataque de romantismo, bem próprio a ocasião, podemos afirmar que o romance é motor do comércio e não o contrário.
DICA DA SEMANA
Macarrão
Espaguete alho e óleo é ame ou deixe-o porque, embora muita gente, digo mineiros e paulistas, adorem o sabor do alho, não são todos que aprovam mastigar pedaços de alho.
Algumas dicas podem ajudar. Primeiro, antes de tudo, o espaguete deve ser cozido ‘al dente’. Escorra imediatamente o macarrão, na água quente ele continua cozinhando. Transfira a massa para uma vasilha untada com azeite, para que fique soltinho.
A parte doída: quando se faz um macarrão alho e óleo, não economize no azeite! Para meio pacote de macarrão utiliza-se uma xícara de chá de azeite. Coloque o azeite para aquecer e jogue bastante alho para fritar. O caso é que não se deve deixar o alho fritar, é só dar um leve tom dourado. Uma dica é: alho começando a dourar, desliga-se o fogo e coa-se o azeite já em cima do espaguete. Você terá o sabor, mas não os dentes de alho.
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