Quando é que vamos parar?


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As notícias dos últimos dias traçam um preocupante panorama que pode anuviar o futuro da humanidade, no que diz respeito à tolerância, seja ela religiosa, de gênero ou de raça. No Brasil, que é um Estado laico e se formou alicerçado no sincretismo religioso que remonta à época da escravatura, as religiões afro sempre conviveram com o cristianismo. Este sincretismo serviu para fundir datas e comemorações em Estados como a Bahia, onde o candomblé anda quase de braços dados com a Igreja Católica. Aliás, em seus primórdios, o candomblé criou uma correspondência entre seus orixás com santos do catolicismo, o que acabou sendo tolerado e hoje até provoca festas religiosas como a lavagem da escadaria da Igreja do Bonfim, em Salvador, num congraçamento que deveria se estender País afora, mostrando tolerância, respeito e fé.
 
Porém, não é a isto que estamos assistindo aqui no Brasil ultimamente, onde demonstrações de preconceito e ódio são estimuladas por pretensos líderes religiosos que não suportam nada que não diga respeito às suas crenças e convicções, tentando obliterar a fé e as crenças do semelhante. Em nosso País, em poucos dias, uma menina de 11 anos foi apedrejada porque vestia trajes típicos de sua religião, o candomblé. Um médium espírita foi apedrejado até a morte. O túmulo de Chico Xavier, líder religioso e ícone brasileiro, foi depredado. A Universidade Federal de Santa Maria abriu uma temporada de caça a estudantes e professores israelenses. Estes são episódios recentes que se somam a diversos outros registrados nos últimos tempos, onde a crença alheia se torna motivo de ataques, agressões e violência.
 
Quem não consegue conviver com as diferenças deixa clara a sua intolerância. Pretos e brancos, católicos e evangélicos, homossexuais e heterossexuais, somos todos iguais na vida e diante da morte que nos equipara. Somos cópias de uma mesma matriz, carne e sangue. Opiniões contrárias precisam, antes de tudo, ser estimuladas, provocando um debate de ideias que abra caminho para a tolerância; isso é fundamental. 
 
Ao ver as atrocidades que se cometem em nome de raça, religião e diferenças culturais e de gênero mundo afora, ninguém pode ficar refratário na atualidade, onde tanto se luta por igualdades e solidariedade. O ser humano vive em sociedade e não pode expor o semelhante a situações constrangedoras — e muitas vezes degradantes — em nome de uma diferença que não torna este ou aquele melhor do que o outro.
 
Como bem diz o jornalista Carlos Brickmann (de raízes francanas), em sua coluna no Observatório da Imprensa desta semana, “já não se trata daqueles malucos eventuais que assassinam porque chegaram à conclusão de que a vítima é um demônio disfarçado. É ódio organizado. E isso, já mostrou um tirano austríaco que na primeira metade do século passado chegou ao poder na Alemanha, não pode acabar bem”. Não há o que acrescentar. Já passou da hora de uma tomada de posição no sentido de apaziguar estas demonstrações de ódio que acinzentam o nosso País, antes tão tolerante. Caso contrário, não há como esperar o futuro de paz e harmonia que sonhamos para nossos filhos e netos.
 
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