‘É um cargo sedutor’, diz Ivani, ex-dirigente de ensino de Franca


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Com 45 anos de trabalho na educação, Ivani Marchesi deixou o cargo de dirigente de Ensino de Franca, no último dia 2 de junho, para aposentar-se. Educadora era responsável por gerenciar 67 escolas estaduais e mais de 39,4 mil alunos
Com 45 anos de trabalho na educação, Ivani Marchesi deixou o cargo de dirigente de Ensino de Franca, no último dia 2 de junho, para aposentar-se. Educadora era responsável por gerenciar 67 escolas estaduais e mais de 39,4 mil alunos
Depois de quase cinco décadas dedicadas a área da educação, a professora Ivani de Lourdes Marchesi de Oliveira, 69, que até o último dia 2 ocupava o cargo de dirigente de ensino de Franca e região, agora está aposentada. Primeira mulher a ocupar a função em mais de 60 anos de história, Ivani dirigiu a Diretoria de Ensino por 13 anos e se tornou conhecida por seu pulso firme e vigilância constante a tudo que ocorria com os 39,4 mil estudantes de 67 escolas estaduais.
 
Em estado de graça, como ela mesmo define, a agora ex-dirigente diz que a aposentadoria era uma “certeza interior”, porém não significa um adeus ao setor. Ivani continuará trabalhando como professora universitária e estuda três propostas de assessoria na área.
 
A educadora desejou felicidade e mais acertos ao seu sucessor e afirmou que se lembrará da sua trajetória com “uma saudade muito alegre”.
 
Nesta entrevista, Ivani disse que “a educação é sedutora e solitária” e a escola, um “reflexo da sociedade”. Confira abaixo um pouco do seu histórico e suas opiniões sobre as transformações da educação:
 
Como decidiu ser professora?
Não sei. Só sei que sou professora desde os 14 anos e fui ficando. A escola onde eu estudava, em Casa Branca, me chamou para ajudar alguns colegas e comecei a gostar. Vi que tinha sucesso e eles também gostaram. Escolhi esse caminho. Foi uma escolha natural e da qual não me arrependo. Foi meu primeiro trabalho e suponho que o último também. Só que antes era como professora primária, que era a denominação da época, e, agora, sou professora universitária da pós graduação.
 
Como a senhora entrou na rede estadual e construiu sua carreira?
Foi por concurso, como PEB I, que é o professor primário. Na época havia um interstício para a cada três anos mudar de cargo, agora não tem mais. Ficava três anos em um cargo e mudava para outro, mediante concurso. Em dez anos fui de professora a supervisora. O primeiro cargo que ocupei em comissão foi esse de dirigente de ensino.
 
Toda essa carreira foi em Franca?
Não. Vim para Franca com meu pai para estudar em uma universidade pública. A mais perto de nós, em Mogi Mirim, de onde sou, era Campinas e meu pai não achou conveniente, pois teria de viajar. Ele era um italiano sistemático e muito antigo. Preferiu se mudar para cá, na vizinhança de Minas, sair do centro do Estado de São Paulo. Nós viemos e ele morou aqui com muito prazer até falecer. Estudei em Franca e quando me efetivei foi no ABCD Paulista, em Mauá. De lá voltei para Ituverava e fui mudando de cidade, até retornar para Franca e criar raízes aqui. Trabalhei em Ibiúna, na Diretoria de São Roque, passei por Patrocínio Paulista, Guará. Profissionalmente falando fui muito cigana, mas, sair agora, não é tão natural como era antes.
 
Em Franca, a senhora deu aula em que escolas?
Lecionei pouco em Franca. Lecionei na Escola “Susana Ribeiro Sandoval”, de maneira muito rápida, depois no “Barão de Franca’ e no “Jerônimo Barbosa Sandoval”. Fui vice diretora na escola do Estreito, em Pedregulho, diretora em Patrocínio e em Ibiúna. E supervisora em São Joaquim da Barra e Franca. Quando comecei, aos 14 anos, dava aula de latim, que era uma língua morta e hoje não tem mais no currículo. No Estado, comecei em 1965 na educação de jovens e adultos e, mesmo na universidade, quando defendi tese de doutorado, também foi nessa área. Parece que não saí dessas questões da educação democrática. Quando supervisora, fiquei longo tempo cuidando dessa atribuição, da recuperação de aprendizagem.
 
Quando atuava como professora pensava um dia ocupar o cargo de dirigente de ensino?
Me tornei dirigente por pressão de colegas. Sempre fui muito conhecida no meio e solidária. As pessoas falavam ‘Vai que te apoiamos’. Fui, gostei, deu certo e acabei ficando. Não fiz prova, ela foi oficializada depois. Na época, a avaliação foi uma entrevista na qual caíram pontos técnicos pedagógicos e questões de políticas educacionais. Depois, quando já estava no cargo, instituíram uma prova para dirigentes. Fiz e passei muito bem. Nunca levei bomba em nenhum concurso até hoje. Quem entra como dirigente agora, passa por um processo de capacitação, do qual também participei. É um cargo sedutor, mas as pessoas não sabem em que água mergulham. Aceitei pelo pedido dos colegas, houve um empenho para que eu concorresse. Tudo isso mostra que a gente é cuidada, é importante na vida do outro. Era supervisora desde 1983 até agora, na minha aposentadoria, e, quando recebi a nomeação, foi muito tranquilo.
 
Como era a rotina de dirigente de ensino?
Era mais de oitivas e de decisões. Não é um serviço burocrático, como se pode pensar. É um serviço de presteza mental e de pensamento histórico. Você precisa tomar decisões, mas pensar nas consequências do que está fazendo. Não dá para trabalhar aleatoriamente ou deixar parado para decidir amanhã. Precisa de uma assessoria fabulosa, como tive, caso contrário não sai do lugar comum.
 
O que mais agradou a senhora no cargo?
Foi ver a qualidade do ensino. Franca ainda é point. Apesar de toda a problemática, Franca está à frente do Estado de São Paulo. Não está sozinha, mas está bem. Isso é mercê de um serviço coletivo muito forte, muito intenso e muito planejado. O dirigente começa a planejar o ano futuro desde abril, quando ele fecha o processo de atribuição. Franca nunca teve problema com falta de vaga, pois isso é muito bem planejado. É claro que existem escolas centrais muito antigas, até centenárias, muito concorridas, onde estudaram gerações. Essas costumam ser mais procuradas, porém a demanda de Franca sempre esteve sobre controle.
 
Qual foi a maior realização da dirigente Ivani?
Olha, preciso fazer um retrospecto até escrito. Hoje estava organizando a minha mudança, que são livros, apostilas e documentos pessoais e vi que meu primeiro trabalho foi uma política educacional local de um projeto ousado em todas as disciplinas. Não pegou muito bem, mas gostei principalmente de ver essa crença. Isso não vou esquecer nunca. Como fui a primeira mulher a dirigir a Diretoria, que tem mais de 60 anos, então a presença feminina foi muito grande. As diretoras ligavam para mim, torciam pelomeu trabalho, acompanhavam o que estava sendo feito.
 
Como a senhora lidou com as críticas e polêmicas durante sua passagem pela Diretoria de Ensino?
Para meu alívio, não acho que fui polêmica. Acho que houve discordância de ideias. Para meu alento e como creio na justiça, as coisas que serviram de divergências de ideias estão acontecendo. Já fui lembrada, agora sou passado. A mim chegaram várias manifestações de apoio e apreço e só uma de desapreço. Meu saldo é muito positivo.
 
O que mudou na educação ao longo desses mais de 40 anos de trabalho?
Houve muito avanço nos direitos profissionais. Mudaram as garantias legais, a política curricular é centralizada e mudou fundamentalmente a população de alunado, agora o acesso é democratizado. Hoje a escola é para todos e antes era para poucos, somente para aqueles que sabiam a importância da escola.
 
Por que se fala tanto na queda da qualidade da educação?
A escola é muito plural, múltipla e há casos pontuais infelizes. Imagina mais de 39 mil alunos entrando na escola às 7 horas e passando alunos em todos os turnos até mais ou menos 11 horas da noite. Tudo vai ocorrer em brancas nuvens? Não. Vai haver conflitos, assim como na cidade há conflitos. A Diretoria de Ensino gere não só o aspecto de recursos humanos, como também os aspectos financeiros, de patrimônio físico e patrimônio de máquinas. Hoje a sociedade é mais violenta e o número de casos (dentro da escola) também aumentou. Isso não se falava há 30 anos. Imagina se um aluno iria bater em um professor ou o professor bater no aluno. É a mesma coisa que chegar dentro da igreja e fazer um crime. É um sacrilégio. A diversidade está dentro da escola. A diversidade boa e a diversidade ruim. A escola é pública e não me compete selecionar. A gente precisa administrar.
 
A senhora acredita que o perfil dos alunos também mudou?
Mudou muito e hoje todos têm acesso. Antes se o aluno não gostava da escola e a escola dele, ele saia. Ninguém ia atrás dele. Hoje temos que ir. O aluno ainda gosta muito do professor, mas há alunos e alunos. Hoje a palavra de ordem é diversidade no respeito, na aceitação, na aprendizagem, na presença. Hoje o professor reclama muito dessa turbulência e no fim ele acaba ficando turbulento. O aluno fala muito alto, a classe é barulhenta e ele começa a falar alto também. Eles se queixam muito disso, o maior descontentamento é a diferença do alunado. O estudante hoje é inquieto, barulhento, agitado e a escola é muito sozinha. Não tem o respaldo de outras entidades, como Conselho Tutelar, Ministério Público e até da família.
 
A categoria se sente desvalorizada?
Não sei. Só posso responder por mim. A rede conversava comigo essas questões disciplinares, de aprendizagem. Se eles iam até a dirigente e conversavam esses pontos, significa que esses pontos são mais cruciais. Sei da desvalorização, mas nas pautas podiam até tangenciar, porém agora no final estava tão “velha” no cargo, que os professores chegavam para se aconselharem. A conversa sempre era mais emotiva, mais amistosa.
 
A senhora enfrentou várias greves como dirigente. Como vê o atual movimento grevista no Estado de São Paulo e a greve recém encerrada no Paraná?
Enfrentei todas, mas sempre dei a seguinte ordem: não obstaculize grevistas, não obstaculize greve, é direito constitucional, mas garanta o direito constitucional do aluno ter aula. Prefiro falar só do Estado de São Paulo, melhor, só de Franca. Acho que a greve se desgastou por si mesma. Em Franca, na estatística que a escola me mandava, porque uma das marcas da minha gestão era a vigília, rodou em torno de 4% de ausência e dentro desse percentual havia as faltas de direito, as de saúde e as faltas de greve.

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