O que resta, para valer


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A vida é relativa. Somos finitos. Quando chega nossa hora, não há como. Então é preciso aproveitar nosso pouco tempo neste mundo passageiro e plantar boas sementes. Não importa se somos bravos ou calmos, metódicos ou desorganizados, sociáveis ou eremitas. Em outras palavras, depois que morremos, vaidade ou falta de, riqueza ou pobreza, branco e negro, tudo vira nada, só carcaça de mesmo mal cheiro. Nisso, nos igualamos. A única diferença estará nas ações que praticamos.  Se para o bem, boas sementes. Se para o mal... 
 
BARTOLI EDDA PELIZARO: Edda se foi, não sem lutar pela vida coerente com seu perfil italiano que jamais se rendeu a quaisquer obstáculos. Os últimos 19 meses foram especialmente difíceis para ela e seus filhos Kiko e Claudinha. Acompanho esses meninos desde que nasceram. Tornaram-se gigantes pelo enfrentamento do que a vida lhes cobrou no cuidado à mãe. Disseram-me, abatidos, ao me comunicaram sua morte, que ela ‘finalmente estava livre das tristezas e das dores que se abateram sobre seu corpo, sua inteligência, sua capacidade de cuidar de pessoas e de causas com a mesma força e determinação, como fez durante toda a sua vida’.
 
Kiko e Claudinha representam, para mim, o que pode haver de mais puro amor filial; o mesmo amor filial que eu e minha mulher recebemos de nossos filhos: irrestrito, vivido intensamente nas incontáveis situações em que se tem que deixar para lá o divertimento, a alegria da companhia dos amigos ou de outros amores, e até, abdicar de projetos pessoais ou profissionais para estar ao lado de pai e mãe, carregá-los em suas dificuldades. Só quem vive, sabe. 
 
Essas jornadas diárias se estendem sem folgas, férias. Nunca sabe em que hora ou em qual situação. Não há descanso físico ou emocional. Penso que agora, finalmente livre das tristezas desta vida, Edda esteja explodindo de orgulho pelo que teve de seus meninos, exatamente o ela lhes ensinou que fossem quando os teve. 
 
Edda e Luiz Antônio Pelizaro são padrinhos de meu casamento com Lourdinha e padrinhos de minha filha Mariana. Luís é meu primo, mas Edda nunca permitiu que eu a chamasse de prima. Dona de humor ácido, sempre deixava claro: ‘Sou a Edda. E me respeite!’. Acabava qualquer possibilidade de confronto com sua gargalhada inconfundível. 
 
Convidei-a a integrar o grupo que, comigo, trabalhou pela instalação e consolidação do CVV (Centro de Valorização da Vida) em Franca, início dos anos 80: ‘seu pão-durismo garantirá o sucesso da obra, mesmo que haja pouquíssimo dinheiro’. Ela respondeu com um ‘eu, pão-dura? Você vai se arrepender disso’. Disse mas aceitou. O CVV vivia da contribuição voluntária de seus plantonistas para enfrentar aluguel de sede, água, luz, despesas gerais. Necessidades de compras? ‘Não! Não vamos comprar outro telefone. O que está aí ainda funciona!’, inflexível. Encantou-se pela causa, no entanto. Tornou-se plantonista; convenceu companheiros do Banespa e até alguns gerentes regionais a apoiarem. Conto porque preservar história é coisa de somenos importância neste país. Por escolha de plantonistas da época, a sala de convivência de quem atendia lá recebeu o nome de filho que Luiz Antônio e Edda perderam quando ela estava plantonista. Não sei se o pessoal do CVV de hoje sabe, mas a Sala de Plantonistas tem nome: ‘Luís Renato Bartoli Pelizaro’. 
 
Edda foi mulher forte, dedicada ao casamento, aos filhos, familiares, amigos, às causas de abraçava, a seus valores éticos, morais e de respeito a quem quer que fosse. Seja como professora de italiano, bancária, plantonista do CVV, tradutora juramentada, organizadora de eventos de filantropia e sempre disponível a quem dela precisasse, cumpriu fielmente sua visão de mundo melhor e mais justo. Nunca será apenas o pó que iguala a todos
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 
 

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