- Tem pouca banana pra muitos macacos.
- Ué, essa eu não entendi!
- Orra, meu, tá na cara! Olha aí a conjuntura do país: pouca cadeia para muito ladrão, pouca oferta de serviço para muito trabalhador, pouco serviço para muito ministério, pouca vergonha na cara para muita corrupção. Daí que tem pouca banana...
- Tá, tá, já entendi. Mas essa é fácil. Deixa eu tomar só mais um golezinho de chope que lhe mostro o que é sabedoria. Ahhh – lá vai: a gente temos que se preocuparmos com o probrema do aunafabetismo.
- Cleodésio, me desculpe a sinceridade, mas ou a bebida anda fazendo mal pra sua cuca ou você deixou a escola muito cedo...
- Num tô entendendo!
- Quem não está entendendo sou eu, Cleo. Você me fala do analfabetismo e comete numa só frase cinco erros de português?
- Ai, ai, ai, sutileza é só pra quem pode, mesmo. Eu critiquei falando como o criticado...
- Agora você vem com bazófia...
- Que que é bazófia?
- É quando você pega e fala assim...
- Pega o quê?
- Como pega o quê?
- Você quem disse que é quando eu pego... Pego o quê?
- Você está bêbado!
- Falando nisso... Ei, psiu, garçom, mais dois, com colarinho...
- Como se chama uma mulher que sabe onde seu marido está todas as noites?
- É uma pergunta pra mim?
- Ã ã...
- Hummm... Clarividente...
- Não, cara, é a viúva...KKKKKKKKKK !
O Cleodésio ficou ali firme, com olho de bagre, com a mão no queixo, não entendendo o porquê da risada.
- Era uma piada ou frase de efeito?
- Você não entendeu?
- Eu estou aqui me esforçando com alta filosofia e você me vem com piada de salão. Estamos tervi... tergi... revirgedando...
- É regurgitando...
- ...?
- Agora é piada, meu!
- Muito da sem graça. Acabou a brincadeira. Quero ir embora...
- Não, vamos para uma disputa de frases... Nem é preciso entender, está bem assim?
- Como funciona?
- Eu falo uma frase de efeito e você fala outra em seguida. Aquele que demorar cinco segundos pra dizer uma, paga a rodada de chope...
- E quem vai marcar o tempo? Eu não tô mais nem enxergando o relógio.,.
- O garçom. Ei, garçom, venha até aqui...
O garçom solícito, pensando na gorjeta, aproximou-se. Os dois amigos explicaram confusamente e por meio de muitos gestos o que queriam. Acho que o garçom entendeu, porque ele empinou o nariz, deu meia volta e se retirou com a dignidade de um lorde. Não se prestava a idiotices de bêbados.
Cleodésio exclamou:
- Cara chato, meu, metido a besta...
- Pensa que é o gerentão... Mas vamos lá, a gente conta até cinco. Vou começar, se prepara: Era tão racista que bebia Black & White em copos separados...
- Humm – Sou fã das escurinhas, porque Deus... crioulas.
- Preconceito, num vale...
- Ó o tempo passando... três, quatro...
- Tá : Levantarei os caídos e oprimirei os grandes. Autor: Sutiã!
- Tá o fino, meu. Acho que estamos fazendo flolcore...
- Quatro...
- Aquele cara é “papo tijolo”: quadrado e cheio de furo.
- Prefiro ser um pai quadrado do que ver minha filha redonda.
- Boa essa. Lá vai outra: Quando estava na faculdade, eu era o futuro do Brasil. Quando saí, me tornei um problema social.
- Muito atual e profunda. Escuta essa: a minha mãe era uma mulher que nasceu analfabeta...
- Quem disse essa bobagem?
- O Lula, num discurso na reunião do partido, ou para uns miseráveis do Nordeste...
Cleodésio deu um tapa na mesa, levantou-se e esbravejou:
- Num fala mal do Lula, não. E nem critica meu curingão, o timão da fiel. Você tá apelando pras inguinorança... – Disse e sentou-se amuado.
Já estavam sem criatividade.
- Quem paga a conta?
- Lá vem você com problema de dinheiro. O dinheiro escraviza as pessoas, principalmente as que não o têm.
- Dinheiro é tudo, meu. Só que eu ando tão endividado que se eu chamar minha mulher de “meu bem” o banco toma ela de mim!
- Você não respondeu. Quem paga a conta?
- Você m’impresta cinquentinha?
- Ah, quem empresta, adeus... Quer saber, eu pago. E se o nosso futuro depender dos nossos sonhos, então vamos dormir.
O garçom suspirou aliviado
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras
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