Uma afronta à democracia


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Uma comitiva de senadores brasileiros, liderada pelo tucano Aécio Neves, tentou ontem fazer contatos com opositores do presidente Nicolás Maduro, presos sumariamente — até que provem o contrário — por causa da oposição ao governo do sucessor de Hugo Chávez. Não conseguiu: no caminho, o ônibus que levava os parlamentares foi cercado por integrantes da milícia chavista e alvejado por pedradas, ovos e pedaços de pau. Assim, a rodovia foi fechada pelo governo venezuelano. Sem conseguir avançar e chegar aos opositores presos, os senadores não tiveram saída: retornaram ao aeroporto, onde ainda estavam ontem à noite. Tudo o que ocorreu foi uma verdadeira afronta à democracia e às liberdades que ela promove, deixando bastante clara a truculência com que o governo do vizinho país age cotidianamente.
 
O que deixa o episódio ainda mais preocupante é a forma com que dois deputados federais, Sibá Machado (PT-AC) e Zeca Dirceu (PT-PR) — este, filho do ex-ministro José Dirceu, condenado à cadeia pelo mensalão e que agora é investigado pela Operação Lava Jato por ter despesas pagas por uma empreiteira envolvida no esquema de desvio de dinheiro da Petrobras — fizeram, nas redes sociais, piada com o cerco. Acima de tudo, uma falta de ética com os colegas parlamentares, além de deixar clara a forma como encaram uma das administrações públicas mais nefastas da Venezuela, onde as liberdades civis são solenemente ignoradas e a pobreza de alastra.
 
Sibá e Zeca Dirceu, em nome de uma ideologia rasteira e ignorante, preferem fazer graça com uma situação que, felizmente, não teve um final trágico. A ditadura de esquerda, como a que Maduro encarna, ao tentar se perpetuar no poder é tão nefasta como um governo de exceção de direita, como o que vigorou no Brasil e hoje produz milhares de vítimas na Síria, onde Bashar al-Assad bombardeia os próprios cidadãos para não deixar a cadeira de mandante-mor. Esta fé ideológica onde só um lado está certo — e a oposição torna-se “golpista” — é uma grande pedra no sapato da democracia. Maduro, Evo Morales e outros esquerdistas “bolivarianos” podem prender opositores sem justificativa, pelo simples fato de integrarem uma “revolução” de esquerda na América do Sul? E a liberdade? E os direitos de todos à livre expressão do pensamento?
 
Para Sibá e Zeca Dirceu, os senadores que foram à Venezuela deveriam visitar os integrantes do EI (Estado Islâmico) que cortam o pescoço de quem não professa a mesma fé. Eles pensam o mesmo de seus adversários políticos? É uma clara demonstração do descontrole daqueles que se acham acima do bem e do mal e estendem o mesmo entendimento aos colegas de ideologia, mesmo que não se importem com a lisura e os princípios democráticos que devem vigorar no mundo civilizado. O episódio de ontem em Caracas é mais uma triste página da História contemporânea da América do Sul que deve ser lamentada, criticada e repudiada. Tentar fazer graça com isso, confiando numa impunidade que o mandato parlamentar confere aos dois deputados, é uma afronta ao nosso próprio País.
 
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