Coruja e águia, depois de muita briga, resolveram fazer as pazes.
— Basta de guerra, disse a coruja. O mundo é grande, e tolice maior que o mundo é andarmos a comer os filhotes uma da outra.
— Perfeitamente, respondeu a águia. Também eu não quero outra coisa.
— Nesse caso combinemos isso: de agora em diante não comerás nunca os meus filhotes.
— Muito bem. Mas como posso distinguir os teus filhotes?
— Coisa fácil. Sempre que encontrares uns filhotinhos lindos, bem feitinhos, alegres, cheios de graça especial, já sabes, são os meus.
— Está feito!, concluiu a águia.
Dias depois, andando à caça, a águia encontrou um ninho com três monstrengos dentro, que piavam de bico muito aberto.
— Horríveis bichos! , disse ela. Vê-se logo que não são os filhos da coruja.
E comeu-os.
Mas eram os filhos da coruja. Ao regressar à toca a triste mãe chorou amargamente o desastre e foi ajustar contas com a rainha das aves.
— Quê?, disse esta admirada. Eram teus filhos aqueles monstrenguinhos? Pois, olha, não se pareciam nada com o retrato que deles me fizeste…
Monteiro Lobato (1882-1948)
escritor paulista, autor de obra importante escrita para crianças e conhecida por várias gerações: O sítio do Pica-pau amarelo
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