A vida na rua


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Em fogão improvisado no chão, grupo cozinha carne de porco na Praça dos Angicos
Em fogão improvisado no chão, grupo cozinha carne de porco na Praça dos Angicos
O vão da ponte sob a avenida Francisco Quintanilha, no Jardim Lima em Franca, se tornou, nos últimos meses, abrigo para três moradores de rua. Com histórias diferentes, o trio tem como companhia Lu e Nickita, dois cachorros sem raça definida que perambulam com eles pelas ruas.
 
Entregues ao vício do álcool, eles pedem esmolas nos cruzamentos, recolhem lixos e dormem ao relento. Comportamento que os iguala a outros que vivem em situação parecida em diferentes pontos da cidade. 
 
Durante dois dias, nesta última semana, a reportagem do Comércio percorreu alguns desses pontos que têm servido de abrigo para essas pessoas e ouviu suas histórias. A maioria é homem que deixou a família e escolheu viver nas ruas por causa do vício em álcool e drogas.
 
O trio que dorme debaixo da ponte em plena avenida Ismael Alonso y Alonso se formou nas ruas e divide não só a companhia dos dois animais, mas também tudo o que recebem de doação ou encontram pelo lixo. “Desinstalados” após a demolição de restos de construção de um antigo curtume onde viviam, foram para debaixo da ponte e ali ficaram. Um deles, natural de Franca, contou com entusiasmo ter conseguido emprego de pedreiro em uma obra nas proximidades e, antes mesmo de começar no novo serviço, revelou que seu maior sonho é ter uma casa naquela região onde possa morar com os dois amigos.
 
Também ali vive um mineiro de Ouro Preto. Nas ruas há oito anos, diz ter sofrido uma desilusão familiar que, atrelada ao alcoolismo, o fez sair de casa. Afirmou não ter coragem o suficiente para voltar e encontrar a família. “Tenho medo de não me aceitarem, dos meus filhos me rejeitarem porque estou na rua”, disse o ex-lavrador, que agora não tem documentos e, por isso, teme morrer e ser enterrado como indigente. Chorando, disse que seu maior desejo é ganhar um abraço do casal de filhos e poder reencontrar o irmão, que não vê há dez anos.
 
Completa o trio um jovem rapaz de riso fácil. Ele é surdo. Nas ruas é conhecido como “Pequeno” e se orienta somente pelo comando do amigo que resumiu sua história. “Ele é de São José da Bela Vista e não tem família”.
 
Casal
Em situação parecida, um homem e uma mulher tentam largar o vício das drogas para mudar de vida, e assim, poder deixar o barraco em que moram em um terreno da avenida Major Nicácio, na Vila Santa Cruz.
 
Ex-moradores do “piscinão”, prédio inacabado na avenida Major Nicácio, os dois são viciados em crack e recolhem recicláveis para conseguir dinheiro. De chão batido, o barraco onde dormem foi montado com lonas, madeira e móveis velhos dispensados no lixo. A mulher diz ser da Bahia e mãe de quatro filhos. Está na cidade há oito anos e diz que se tivesse condições, gostaria de voltar para seu estado de origem. Seu companheiro já trabalhou como sapateiro e pintor, tem 46 anos e passagens por furto e tráfico. A família mora em Franca, no mesmo bairro do seu barraco, porém o vício não permite uma convivência pacífica e, por decisão própria, ele escolheu viver na rua.
 
No Jardim Francano, entre as ruas Brodowski e São Sebastião, a Praça dos Angicos também tem servido de abrigo para moradores de rua e usuários de entorpecentes. Eles se misturam, fazem uso de drogas em meio as árvores e transmitem medo e repúdio aos moradores do bairro e aqueles que por ali passam. Ao serem abordados pela equipe de reportagem, os cinco homens se mostraram arredios de início, mas depois revelaram estar naquela situação devido a “falta de oportunidades e de forças para vencer o vício”.
 
Um deles revelou ser do litoral paulista, mas disse viver em Franca há 40 anos. Devido ao vício, perdeu o emprego de enfermeiro e, depois de tentar outras profissões, não conseguiu manter as relações e optou por morar na rua.
 
Juventude perdidade
Aos 34 anos, outro integrante do grupo contou que começou a usar drogas aos 21 e, apesar de manter contato com a família, prefere ficar “livre” para manter o vício. O rapaz é apenas mais um a integrar a lista de pessoas vivendo nas ruas em Franca. A Prefeitura estima que 300 pessoas estão nessas condições hoje na cidade (leia mais em texto nesta página).
 

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