“A corrupção, na era petista, virou um método de governo”


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Senador da República, José Serra, em visita a Franca durante esta semana, fez críticas contundentes, disse que Dilma deveria se mancar e sair e decretou: “o PT acabou”
Senador da República, José Serra, em visita a Franca durante esta semana, fez críticas contundentes, disse que Dilma deveria se mancar e sair e decretou: “o PT acabou”
José Serra (PSDB) tem 73 anos, é formado em engenharia civil pela Universidade de São Paulo e mestre em economia pela Universidade do Chile. O engenheiro construiu uma extensa e bem sucedida trajetória pública. Foi eleito pela primeira em 1986, como deputado federal. Foi reeleito sem dificuldades, chegou ao Senado, tornou-se prefeito de São Paulo e governador do Estado. Disputou a Presidência da República em 2002 e em 2010.
 
Foi ministro do Planejamento e ministro da Saúde no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). No ano passado, recebeu 11,1 milhões de votos e foi eleito senador da República pela segunda vez. Em Franca, Serra teve 113,3 mil votos, 72% do total. De cada dez eleitores, sete digitaram o número dele na urna eletrônico.
 
Quinta-feira, 11, José Serra retornou a Franca e palestrou para estudantes universitários na Câmara Municipal. Visitou rádios e jornais. Nas entrevistas e no bate-papo com os alunos mostrou porque é uma das vozes mais contundentes de oposição ao governo federal.
 
O senador fez críticas à condução da política econômica, culpou o governo federal pela crise enfrentada pelo País, disse que corrupção virou método de governo e afirmou que o PT acabou. Disse, ainda, que a presidente Dilma Rousseff deveria se mancar e pedir para sair. Ele também falou da reforma política e de sua proposta para endurecer o código penal. Acompanhe a entrevista. Serra está mais afiado do que nunca.
 
 
As propostas de reforma política em discussão e já aprovadas pela Câmara Federal vão melhorar o sistema?
O que foi feito até agora vai mudar pouco, mas ainda tem um caminho pela frente. A meu ver, o que foi aprovado que acredito que vá permanecer, é o fim da reeleição, ter um mandado só. Acho que isto vai ficar. O resto ainda não está muito claro. A proposta de instituir eleições gerais simultâneas para todos os cargos eletivos, que foi rejeitada, ficou incompleta. Não sou a favor disso. Porque aí, você nunca vai debater, por exemplo, os problemas municipais, pois fica tudo amarrado na questão nacional, com a disputa pela presidência da República sendo feita no mesmo período.
 
O senhor defende o voto distrital e propõe que a mudança comece pela eleição de vereadores. Como a medida funcionaria?
O voto distrital melhora duas coisas: primeiro, reduz o custo de campanha. No caso de Franca, por exemplo, que tem 15 vereadores, seriam divididos distritos de 20 mil eleitores. Seria um candidato por partido. Você teria, no máximo, de cinco a dez candidatos. Não precisa nem de carro para fazer, você pode ir de casa em casa. Aumenta a representatividade da democracia e diminui o custo, a influência do poder econômico na eleição. 
 
Na quarta-feira, 10, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, reafirmou que o governo federal deve apoiar o projeto do senhor que eleva de três para dez anos o período de internação de jovens infratores em casos de crimes hediondos e não reduz a maioridade penal. O senhor acredita que a proposta será mesmo aprovada?
Acredito que sim. O projeto não é contraditório com a maioridade penal, que depende de alteração na Constituição. Minha proposta, que não é excludente, mexe com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Tive uma experiência dramática com esta matéria quando fui governador: tinha um garoto assassino, torturador, o “Champinha”, que, depois de completar três anos preso, queriam soltá-lo e eu não deixei. Se é um adolescente perigoso, que fique internado dez anos. O que se trata é de privar a liberdade, é de não tê-lo ameaçando as pessoas, não importa se é numa masmorra penitenciária ou numa internação. Esta é minha ideia. Acho que este projeto vai andar. 
 
Uma das suas bandeiras de campanha foi a implantação da nota fiscal brasileira, similar à paulista, mas relacionada ao imposto de renda. Como está o projeto?
Está andando. O relator é o senador Romero Jucá, lá no Senado, que é um senador do PMDB que tem força. Acredito que vai ser aprovada. Daí, vai ter um embate com o governo. Criei a nota fiscal paulista e aumentou a arrecadação porque combateu a sonegação. Diminuiu a carga tributária individual porque você o imposto de volta.
 
Como avalia o ajuste fiscal feito pelo governo federal?
Foi um ajuste desajustado, do tipo: você tem uma unha encravada, corta o dedo. Ou mata o doente para curar a doença. É um exagero a questão dos juros. Está subindo à toa. Não precisa exagerar. A dose faz o veneno. É o que está acontecendo no Brasil por causa da inépcia, por não saber governar. Não sinaliza futuro de confiança para investimentos. Isso não se faz com anúncios espetaculares. Se faz com credibilidade e com políticas concretas. A Dilma já governou quatro anos, se reelegeu e, só agora, anunciou um programa de concessões para investimentos mal feito. Antes, ficou perdendo tempo com o tal do trem bala para ir de São Paulo ao Rio de Janeiro, cem quilômetros de túneis, uma coisa louca. Custaria R$ 75 bilhões. Não fez nada, gastou uma nota e, agora, está criando outro para ir até o Peru. É um desvario.
 
A CPI da Petrobras aprovou, na quarta-feira, 10, a convocação do presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, para prestar esclarecimentos sobre doações de R$ 3 milhões feitas, entre 2011 e 2013, pela construtora Camargo Corrêa à entidade do ex-presidente. Como avalia esta questão?
A questão da Petrobras é bastante ampla. De fato, a corrupção, na era petista, virou método de governo. Corrupção tem em todo lugar, a todo momento, mas são sempre anomalias. Outra coisa é quando vira método. A CPI está investigando, não estudei este processo, mas a Câmara Federal vai aprofundar as investigações. Se o Paulo Okamotto tem algo a ver, isto vai aparecer
 
Analisando os escândalos de corrupção, o senhor defende o impeachment da presidente Dilma?
Impeachment é combinação de um processo. Se houver evidências claras de malversação, de irregularidades, evidente que defenderei. Até agora, não tem nada concreto a esse respeito que seja convincente. Impeachment tem que ser fundamentado, algo como batom na cueca. No momento, não tem isso. No regime parlamentarista, como é na Inglaterra, na França, na Europa inteira, o governo ruim cai. Troca-se o primeiro ministro. No Brasil, não é assim. Podemos reclamar, mas é preciso ter um motivo para tirar do poder. O povo quer que mude o governo. Disto não temos dúvida nenhuma. A insatisfação é enorme. É um governo fraco, ruim. Não estou sendo nem partidário. É uma coisa que até o pessoal do PT, quando fala com mais franqueza, reconhece. É um governo ruim. Não acho certo que a Dilma termine o mandato, não. Estamos pagando, a Dilma teve a maioria, foi eleita. Ela podia, como se diria na gíria, se mancar e sair, mas ela vai permanecer, vai ficar, vai insistir. Mas que, pelo menos, faça melhor as coisas.
 
O senhor diz que não há motivo que justifique no momento o impeachment, mas que a fraqueza do governo pressiona pela saída da presidente...
É uma pressão para se ver livre da Dilma. Se você for na rua e perguntar se a pessoa gostaria de não ter mais a Dilma amanhã, 80% vão dizer que sim. Tem um mito que é o seguinte: “Congresso forte, está enfraquecendo o governo”. Não é verdade. É o governo fraco que fortalece o Congresso. Eles são fracos e, inclusive, não é só por causa do PT. Acho, aliás, que o PT, na tendência, acabou. Isto não significa acabar o petismo, mas o PT mesmo acabou. Não estou concentrando em mim, sente-se em todo lugar. O governo esta aí. O que podemos fazer? Tenho atuado muito no Congresso com medidas, mas o Congresso não vai substituir o governo. O governo teria que se emendar, teria que aprender. Mas, eles erram uma atrás da outra. O governo é masoquista. Gosta de sofrer e de ficar mal. O governo não é ruim só porque é PT. Olha, ser PT já uma boa condição para ser ruim. Eles são muito ruins de serviço, mas tem também o problema de preparo, inépcia. O PT tem fama de defender os interesses nacionais, mas é o contrário. Eles estão desindustrializando o Brasil. No próximo governo, teremos que reindustrializar o Brasil.
 
O atual momento é um dos piores enfrentados pelo País?
Eu acho. Desde criança, sempre me interessei por política. Tiveram momentos críticos, quando o presidente Getúlio Vargas se matou, ele iria cair, seria deposto, ou quando o Jango caiu. Não estritamente na forma, mas diria que estamos em momentos críticos semelhantes. É pior do que em 1954 porque não se sabe o que fazer, para onde vai o País. Não se tem rumo. Quando não se tem rumo, qualquer caminho serve. Não estou pessimista. Estou fazendo uma análise. 
 
Qual cenário o senhor projeto para o futuro?
A curto prazo, ruim. Está fazendo política de curar a doença matando ou cortando o dedo para tirar unha encravada. A taxa de juros é uma barbaridade. O governo está enriquecendo quem já tem dinheiro e punindo quem produz. Este é meu diagnóstico básico. Quer começar a mudar? Para com este negócio dos juros que não faz sentido.
 
Ainda alimenta o sonho de disputar a presidência da República?
Não quero tratar deste tema pelo seguinte: nem um oitavo do tempo do atual mandato passou. Se formos começar a discussão eleitoral agora, ninguém trabalha direito. A política é o terreno eminente da paranóia. Se começar agora a irrigar, a alimentar a paranóia, me Deus do Céu. Estamos demasiados no começo.
 
O que a população de Franca pode esperar do senhor no Senado Federal?
Sou pessimista no diagnóstico, mas sou otimista na ação. Vou continuar batalhando. Minha tarefa na política, sempre encarei deste jeito, não é ficar dentro do possível. Política é arte de ampliar os limites que você conhece do possível. Vou continuar minha batalha e espero corresponder a estes mais de 100 mil eleitores que confiaram em mim na cidade. 

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