O Brasil não muda. E a forma como a classe política encara a população brasileira, também não. Ainda somos considerados massa de manobra, percebe-se, ao se esmiuçar o pacote de concessões anunciado com toda pompa anteontem pela presidente Dilma Rousseff (PT). Na edição de ontem, neste mesmo espaço, mesmo diante de algumas das dúvidas iniciais, demonstrávamos a esperança de que o pacote se tornasse efetivo, atingindo os objetivos propostos. Porém, a primeira impressão -- de que seria apenas uma jogada de marketing, uma tentativa de criar uma notícia positiva em meio aos problemas que o País enfrenta — acabou confirmada, quando os pontos principais do anúncio foram esmiuçados.
Analistas, que se mostraram céticos no primeiro momento, foram contundentes ao mostrar, na mídia, que o PIL (Programa de Investimento em Logística) não passa de um amontoado de projetos cuja maioria já tinha sido anunciada há pelo menos dois anos e nunca saiu do papel. Além disso, a ferrovia Transoceânica, ligando Campinorte (GO) à fronteira com o Peru, no momento não passa de uma ideia: não há traçado definido, áreas que serão atingidas e estudos de impacto ambiental. E o que é pior: especialistas em engenharia garantem que o projeto é inviável, pelos altos custos de sua construção (muito mais do que os R$ 40 bilhões previstos pelo governo). Entre empresários, o empreendimento já é encarado como um novo “trem-bala”, que nunca saiu do papel.
Outro ponto que chama a atenção é de que pelo menos dois terços do volume de recursos que financiariam o PIL somente seriam aplicados a partir de 2018, após o fim do mandato de Dilma Rousseff. Ou seja: fadados ao “esquecimento”. Apenas a privatização de portos e aeroportos tem chances de seguir em frente, principalmente depois que o governo resolveu mudar a modalidade de licitação, utilizando o mesmo modelo adotado pelo governo FHC (1995-2003), fortemente criticado pelo governo atual e seus aliados. Mesmo assim, os Ministérios da Fazenda e do Planejamento terão muito trabalho para conseguir convencer investidores internacionais a participarem das licitações. Por isso, ontem, analistas e empresários já se mostravam bastante desanimados com a possibilidade de que todo o pacote seja viabilizado.
Segundo alguns economistas, o montante que o governo diz que vai investir até 2018 é a soma dos recursos não utilizados no primeiro lote do PIL, em 2012. Para eles, não passa de uma ‘maquiagem’ no que não foi concluído nos últimos cinco anos, incluindo aí o pacote de infraestrutura e mobilidade urbana para a Copa do Mundo e o primeiro PIL. E o que é pior: o governo não anunciou de onde vai tirar todo este dinheiro, depois dos cortes do orçamento que atingiram todos os ministérios, chegando a cortar a verba de programas sociais como o Minha Casa Minha Vida, e de serviços públicos, como Educação e Saúde. O Planalto não explica e todos já conhecemos o final: vai continuar na mesma. A classe política ainda acredita-se capaz de ludibriar a população com o uso da propaganda. Ela se engana ao pensar assim.
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