A questão já vinha sendo levantada há muito tempo, mas foi necessária a ação do FBI (polícia federal norte americana) para expor a corrupção envolvendo o futebol mundial, no âmbito da Fifa (que comanda os destinos da modalidade no mundo). Não foi surpresa nenhuma a prisão do ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), José Maria Marin, por crimes financeiros no comando da entidade. Ex-governador de São Paulo (entre 1982 e 1983), em 2012, como vice-presidente da CBF para a região Sudeste, Marin foi flagrado por uma câmera de TV colocando uma medalha no bolso durante a premiação da Copa São Paulo de Futebol Junior, a Copinha. O jogador que ficou sem a medalha recebeu a sua dias após. Além de Marin, outros dirigentes de futebol da África e das Américas foram presos.
Como se viu dias depois, a prisão de Marin e seus colegas levou o presidente da Fifa, Joseph Blatter, a renunciar. Segundo consta, não existem apenas indícios, mas também sólidas provas de que a corrupção envolveu algumas federações de futebol (como a CBF e a AFA argentina, entre outras), não só quanto a apoios para a escolha de sedes de mundiais, mas também à comercialização de eventos para a TV ao redor do mundo e à definição de patrocínios para fornecimento de material esportivo. A principal fonte é o jornalista José Hawilla, dono da Traffic, preso desde 2013 nos Estados Unidos e que gravou conversas comprometedoras de Marin, além de apresentar farta documentação a respeito dos esquemas fraudulentos.
No Brasil, décadas atrás já havia suspeitas de que o futebol vinha sendo usado para o enriquecimento de seus dirigentes, mas nunca tinha havido qualquer movimentação efetiva para a apuração. Por isso, Marin deve ter mantido a tranquilidade, imaginando que nunca seria pego. Mas foi. As suspeitas são mais amplas do que o apresentado até agora e podem chegar ao ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e ao atual, Marco Polo Del Nero (que estava na Suíça e imediatamente voltou ao Brasil depois da prisão de seu antecessor).
Sempre se denunciou que dirigentes do futebol, inclusive de clubes, enriqueciam com a corrosão dos cofres das agremiações. Hoje, equipes como Corinthians, Santos, Flamengo e Botafogo, entre outras, estão quebradas, com dívidas até o último fio de cabelo. A construção das arenas para a Copa do Mundo (e a maioria delas está abandonada) não foi devidamente investigada e agora os deputados ligados à chamada bancada da bola criam instrumentos capazes de beneficiar os clubes endividados, à custa de desfalques aos cofres públicos. Até quando vai continuar esta situação? Enquanto o futebol no País for dirigido sem profissionalismo, sem honestidade, sem valores e sem ética, não há alternativas viáveis. Utilizar a maior paixão do brasileiro como método de enriquecimento, com o beneplácito dos entes públicos, repete o que se faz com nossas estatais e autarquias. Quem sabe a evolução das investigações do FBI, que agora conta com o auxílio da Polícia Federal brasileira, seja o ponto de partida para mudar tudo isso?
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