Revolução das formiguinhas...


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Fui à capital cuidar de assuntos profissionais. De novo,  decidi usar táxis para melhorar a velocidade e conseguir cumprir compromissos previamente agendados. Taxistas conhecem atalhos melhores que os sugeridos pelos mais modernos aparelhos de GPS. Os números da capital paulista não me deixam dúvidas: segundo projeção sobre emplacamentos diários novos feitos pelo Detran paulistano, São Paulo chegou a 8 milhões de veículos em circulação nos 17 mil quilômetros de vias de sua malha urbana na segunda-feira desta semana que está acabando. 
 
São Paulo submete cada habitante seu a disputar espaço com 2,03 veículos! Afinal, só 38,42% dos paulistanos usam transporte coletivo. Dos restantes, 30,78% usam veículo próprio e 30,80 vão ‘a pé’ e quase sempre quebram a cara. Caos puro.
 
Então, não negocio. Chego em São Paulo e corro a pontos de taxistas que conheço.  Quem vive em Franca, como eu, tem, também aqui, motivos mais que suficentes para fazer o mesmo. Já são, nesta cidade,  215 mil veículos, um para cada 1,58 habitantes. De minha parte, ando cada vez mais decidido a não contribuir com o aumento de acidentes que aqui matam ou aleijam mais que guerras. O trânsito tem me estressado. Arranco de meus já parcos cabelos da cabeça cada vez que tiro o carro da garagem. Na primeira esquina, suspiro. Na segunda, conto até dez. Na terceira, até mil. Na quarta já me vejo endereçando motoristas à ponte que partiu, já que só usam espelho retrovisor para pentear o cabelo; seta, para que, mesmo?, muretas no lugar de freio, e dirigem como se donos do mundo fossem. Todos os dias, mesmo prometendo que ‘neste novo dia serei o cidadão controlado que preciso ser, que não medirei forças com ninguém e que perdoarei quem me ofende’, poucos metros percorridos e lá estou eu substituído, de novo, pelo brucutu que sei que sou. 
 
Vale a pena andar de táxi em São Paulo. Um dos segredos para se dar bem é descobrir, como descobri,  taxistas que tenham ponto  em um mesmo lugar. Vá lá e negocie. Peça estimativa de tempo e de preço a pagar pelo  percurso que lhe interessa. Você economiza e evita alguns que, taxímetro ligado, levam você a ‘viagens turísticas’ antes de levá-lo aonde você precisa ir de verdade. De outro lado, ganha interlocutor, que o ajuda a entender o que, de fato, está acontecendo na capital, no Estado, no país, no mundo. Taxistas são bons de proseio. Alguns ouvem mais do que falam, pelo menos até que saibam quem é você e o que faz. Aí, se soltam.  Pode acreditar: têm informações privilegiadas, e informação nunca é demais. Você sabe: quem tem informação, lidera; quem não tem, é liderado.  
 
Quando a conversa engata, é ainda melhor. Aproveitamos, eu e José Carlos, motorista com 18 anos de trabalho na praça da República, para conversar sobre a corrupção que desgraça este país enquanto, em trânsito, esperávamos que se desengarrafasse um trecho da avenida Nove de Julho. Conversa vai, conversa vem,  concluímos sobre  a falta de zelo com o voto demonstrada pelo  brasileiro médio que não compreende o poder de mudança que tem quando vai consciente às urnas, e do país melhor que poderia construir para si, se assim agisse. Zé franziu a testa e me perguntou se eu fazia algo para modificar isso. 
 
Contei-lhe de meus textos de  sábado neste Comércio da Franca, das propostas para que cada leitor que se descubra preocupado saia por aí fazendo ‘tantas vítimas positivas quanto puder’, e as estimule a repetir com outros para ocasionar incontáveis pequenas revoluções de  progressão geométrica. José Carlos sorriu. ‘Então somos dois pensando igual. O que o país não precisa é de aritmética do um mais um’. Sim, Zé Carlos. Quatro. Oito. Dezesseis. Trinta e dois na velocidade geométrica que tende ao infinito; não na inércia que os políticos de plantão querem que continuemos. Mais um passo da revolução das formiguinhas. Se no trânsito de São Paulo é possível, então...
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

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