“A gente nunca espera que o preconceito venha da própria família, mas sim, de fora. Quem deveria proteger é justamente quem agride”.
Foi desta forma, visivelmente abalado, que um estudante, de apenas 14 anos, definiu o que sentiu ao ser agredido. Ele acusou seu pai e seu irmão. O motivo? Sua orientação sexual, que, segundo relato dos envolvidos, não foi aceito pelo irmão, um bancário de 22 anos, e nem pelo próprio genitor, um eletricista de 42. O caso aconteceu na casa do avô paterno da vítima, em bairro de Franca, por volta das 22h30 da última quarta-feira.
As marcas avermelhadas e hematomas deixados no pescoço, braços, costas e rosto do adolescente são tão visíveis quanto o ressentimento pelo que ele define como humilhação e violência. “Além de me segurar pelo pescoço, meu irmão, que é apenas por parte de pai e com quem nunca me dei bem, bateu meu rosto na mesa. Meu pai ajudou a me espancar e me humilhou com palavras desprezíveis porque não aceita seu filho ‘não ser um homem de verdade’”, contou.
Após ser espancado, o garoto se escondeu no banheiro e ligou para a mãe, uma cabeleireira de 35 anos, e também para a Polícia Militar. Enquanto aguardava, o menor teria recebido novas agressões. Discursos homofóbicos teriam sido proferidos por seus familiares que, há dois meses, intensificaram o assédio após que ele revelou ser homossexual.
De acordo com os relatos da mãe, que tem outros três filhos com o eletricista, e do próprio garoto, além do jovem, dos agressores e suas respectivas namoradas, na casa estava o avô, que não presenciou a cena e só acordou quando a Polícia Militar chegou ao local. “Ele não aceitou o filho ser homossexual e teve a coragem de dizer que a culpa do menino ser gay é minha e que ele se feriu para acusá-lo”, engrossou a mãe, que ainda contou sofrer constantes ameaças. “Nos divorciamos há sete anos porque ele agredia a todos nós e bebia muito. Até hoje, ele faz terror psicológico. Por isso, não vou permitir que nem ele, nem o filho façam isso de novo. Vou entrar com uma ação judicial (contra eles)”, ressaltou a cabeleireira.
Exame médico
Após registrar um boletim por lesão corporal, a mãe e o jovem foram orientados pelos policiais a procurar atendimento médico. Eles deram entrada na Santa Casa no mesmo dia da agressão, mas, por conta do feriado prolongado, nenhum médico o examinou. Só foi possível ter avaliação na manhã de ontem. O laudo confirmou que o menor foi vítima de agressão física.
À reportagem, o pai do menor negou tudo e disse ter apoiado o filho. “Ele e a mãe gostam de chamar atenção. Não tenho nenhum preconceito. Eu só o segurei e tentei deixá-lo no quarto porque ele queria sair naquela hora da noite”, disse. Logo em seguida, o pai deu nova versão. “Ele pegou o notebook de outros meninos e não quis devolver. Por isso, o seguramos pelo pescoço. Meu outro filho também o segurou no pescoço porque ele (a vítima) xingou a mãe dele”, justificou. O caso será investigado pela Polícia Civil.
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