‘Foi bom demais...’


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Falo de minha primeira vez, do momento em que cheguei ao mestrado em Linguística. Era advogado engessado pelo estereótipo da profissão em sala de graduados e doutorados em Letras, Linguística e Educação. 
 
Eu acreditava que falava e escrevia bem, mas descobri-me bem limitado. Impactou-me saber que o ser humano não controla seu discurso e o efeito de sentido que provoca. O contato com os professores foi chocante, provocante, paradigmático. Fui profundamente tocado pela forma de ensinar/aprender que lhes era peculiar, especialmente pela singela paciência que tiveram comigo, e isso me motivou a continuar. 
 
Cito algumas gratas lembranças. Um dia, professora de ar angelical, Ana Cristina Carmelino, apresentou texto sobre ‘Carnavalização’, e pediu-me que lesse em voz alta. 
 
Comecei e não terminei. O texto tinha tantas ‘obscenidades’ que eu desatei a rir. O resultado? Em meu doutorado vou apresentar um seminário sobre o riso e a persuasão. 
 
Outra professora, Ana Regina Momesso. apresentou-me Foucault. Gostei tanto que assisti suas aulas duas vezes. Maria Silvia Louzada, minha orientadora, se autodenominava ‘jararaca’. Aprendi que suas ‘picadas’ eram produtivas. Por causa disso dei conta da dissertação. Atrás da ‘cobra’ havia uma mulher admirável, sensível e profissional. Para mim, nunca existiu ‘jararaca’, tanto que escrevemos sobre a Lei Maria da Penha e o texto se tornou livro. 
 
Maria Flávia Figueiredo iniciou-me na argumentação e retórica dando-me noções de psicanálise. Como resultado, fiz pós-graduação em psicanálise e estou no doutorado com ênfase em argumentação e retórica, tendo como orientador Luiz Antônio Ferreira, professor que no mestrado mostrou pedagogia baseada em responsabilidade e afeto. Aceitou me orientar na tese referente a casamento homoafetivo e retórica sexista. 
 
Reconheço as indeléveis transformações pessoais e profissionais geradas por esta minha ‘primeira vez’. Foi bom demais. 
 
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário

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