Quero falar de um assunto, mas não tenho certeza do “ineditismo” do argumento. Corro os olhos pelas inúmeras crônicas já escritas para me certificar. Não tenho certeza, me perdoem se estou sendo repetitiva, mas são tão poucas as coisas em que acreditamos que voltar aos mesmos assuntos se torna inevitável. Ou nos repetimos ou nos calamos.
O nome dela é Temple Grandin, uma mulher americana portadora de uma doença absurdamente incapacitante porque dificulta o relacionamento humano de forma dramática - ela não suporta ser tocada sequer pela própria mãe. No entanto, a doença lhe deu uma inteligência incomum numa especificidade. Ela tem autismo, particularmente nominado de autismo de alto funcionamento.
Grandin não pensa como nós, dotados de cérebros comuns, ela pensa em imagens, vê o mundo de forma que as figuras lhe contem histórias. Mas não de modo simples: ela diz que, por exemplo, se alguém lhe pedir para pensar numa torre de igreja, lhe virá a mente uma porção de torres diversas, com detalhes, como se a mente dela fosse uma espécie de google imagens. E exatamente por isso, ela descobriu que entendia a linguagem animal.
A grande história da vida dela, que a fez mundialmente famosa, se iniciou numa fazenda. O convívio na cidade lhe era difícil e a mãe resolve levá-la ao campo para uma vivência junto a natureza e lá ela teve uma verdadeira revelação: ela conseguia enxergar como os animais. Observando ao que o gado era submetido numa fazenda de corte, ela pode saber os pontos de tensão, o terror sentido pelos bichos, os efeitos do confinamento. Pela genialidade, pela compaixão, ela criou esquemas que minimizaram sobremaneira o sofrimento do gado. Ela revolucionou as fazendas de manejo.
Um exemplo: corredores retos e longos causam um estresse enorme no bicho que não consegue enxergar o que há ao final. Ela projetou corredores curvos, o gado caminha em ziguezague e se sente seguro. Mas também coisas pequenas, uma bandeira flamulando no lugar errado, uma corrente pendurada, a cor da roupa de um vaqueiro, coisas que nós não somos capazes de perceber.
Ela dá um exemplo engraçado: um hidrante para nós é o que é. Para um cão é um mundo de imagens que se projetam a partir do sentido do olfato: quem esteve ali, era amigo, inimigo, atraente...
A moral dessa história, a meu ver, reside na riqueza da diversidade. Ela nos convence de que o mundo precisa de todos os tipos de mente - como descartar uma mente autista que traz também uma genialidade? Por que esse nosso desejo de planificar as gentes, as comidas, os gostos e nos transformarmos num mesmo? Quanto mais penso sobre a diversidade, vejo quanta sabedoria há nisso: de fato, só ela é capaz de nos manter vivos e de pé.
Dica da semana
Gelatina
Percebo que a cada dia mais pessoas evitam o consumo da clássica gelatina porque ela é de origem animal. Muitas vezes quando fazemos sobremesas com gelatina, lá no Azul, vegetarianos se recusam a comer.
Portanto, empreendemos testes para descartar a gelatina de origem animal. E uma coisa que tem funcionado satisfatoriamente é a chia! O problema é o preço, mas ela tem um grande poder gelificante. Para ver, basta colocar um pouco da semente em água e quase que instantâneo começa a se formar uma película.
Não sei de medidas. Mas sei dizer da preparação que fizemos: uma mousse de ameixa. Para meio quilo de ameixas secas, 2 colheres de sopa de chia foram necessárias para uma consistência firme. Aliás, essa receita é light. Deixe as ameixas de molho em água por 5 horas. Depois ponha para bater no liquidificador: as ameixas, a chia, 1 vidro de leite de coco. Bata muito bem, por cerca de 5 minutos e ponha para gelar.
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