Higino Nascimento era, antes de tudo, um jornalista. Também era político. Como político, não almejava cargos ou funções eletivos ou de nomeação. Defendia teses, programas, ideologias. Defendia, principalmente, os seus correligionários.
Higino Nascimento era o que se podia chamar de um homem bravo. Bravo, corajoso, destemido, violento, apaixonado. Todos estes adjetivos podiam ser aplicados ao caráter de Higino. Na defesa de suas idéias e de seus amigos, ele usava a pena e o revólver. Sim, ele não largava um revólver calibre 38 preso à sua cintura, discretamente acobertado dos olhos dos circundantes por um paletó escuro. Com esse revólver, Higino já havia matado pelo menos uma pessoa e atirado em várias outras.
Conheci Higino Nascimento e tive dele as melhores impressões. Sempre de terno, chapéu e óculos escuros, Higino era um homem sério, muito sério, mas também educado, formal e gentil. Lembro-me de certo encontro que tive com ele na Praça Barão. Ele estava acompanhado por sua filha, a Fiúca, a qual tratava com todo cuidado e carinho. Higino estendeu-me a mão ( e eu era nada mais do que uma criança) e disse:
- Como vai o Senhor?
Tratava-me como se gente grande eu fosse. Como disse, Higino era um homem sério, intransigente, radical, irremovível. O seu mais generoso sorriso se fazia com um leve levantar do canto direito dos seus lábios.
O revólver e a pena era as armas de Higino Nascimento.
Para expor e defender suas ideias ele mantinha um jornal ( cuja circulação variava de acordo com suas paixões ) denominado A Bomba, que tinha como slogan a frase Dura lex, sed lex ( A lei é dura, mas é lei ). Seus artigos eram tão violentos quanto o seu revólver. Ele não tinha papas na língua. Atacava para valer, para ofender, para desmoralizar o seu adversário.
Só para que o prezado leitor tenha uma amostra dos artigos explosivos de A Bomba, vou reproduzir um pequeno trecho em que Higino atacava um outro jornalista:
- Ele não foi parido. Foi expelido por um burburinho intestinal.
É por isso, prezado leitor, que naqueles tempos (meados do século XX ) a pena precisava sempre vir acompanhada do revólver.
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