Em tempo de busca de redescobrimento da ética, vamos falar da prisão de líderes do futebol mundial e diretores com direito a voto para a presidência da Fifa, reunidos na Suíça dias antes das eleições. (Aliás, mesmo com o tsumani gerado pela surpresa da ação norte-americana contra a corrupção institucionalizada que toma conta do futebol mundial, Joseph Blatter foi reeleito ontem — 133 votos contra 73 dados ao concorrente, o príncipe jordaniano Al-Hussein). Minha preocupação, ao verter trechos das explicações distribuídas pelo Departamento de Justiça Norte-Americano é suprir o desejo por informação mais minuciosa de leitores que gostam de se aprofundar para formar opinião adequada. Vamos lá. Os negritos em alguns trechos são meus.
“A acusação aberta em tribunal federal do Brooklyn, Nova York, cobra 14 réus por extorsão, fraude eletrônica e conspiração de lavagem de dinheiro, entre outros delitos, no âmbito da participação deles em esquema de 24 anos para enriquecer-se através da corrupção do futebol internacional. (...). Dentre os acusados há altos funcionários da Fédération Internationale de Football Association (FIFA), organização responsável pela regulação e promoção do futebol mundial, bem como de altos funcionários de outros órgãos que operam sob o guarda-chuva da FIFA. (...) (também), executivos de marketing esportivo da América do Sul que estão alegando terem pago sistematicamente subornos e propinas para obter meios de comunicação e direitos de marketing lucrativos para torneios de futebol internacionais.
As acusações foram anunciadas pela procuradora-geral Loretta E. Lynch, (...) o diretor do FBI, James B. Comey, e o director Richard Weber, da Investigação Internal Revenue Service-Criminal (IRS-CI). Sete dos acusados foram presos em Zurique — Jeffrey Webb, Eduardo Li, Julio Rocha, Costas Takkas, Eugenio Figueredo, Rafael Esquivel e José Maria Marin. Foram alcançadas confissões de culpa de Charles Blazer, ex-secretário-geral da Concacaf e ex-representante dos EUA no comitê executivo da Fifa; José Hawilla, proprietário do Grupo de Tráfego, multinacional de marketing esportivo com sede no Brasil; e mais dois de empresas de Hawilla, a Traffic Sports International Inc. e a Traffic Sports EUA Inc., com sede na Flórida.
A acusação é de corrupção desenfreada, sistêmica e enraizada tanto no exterior como nos Estados Unidos’, disse a procuradora-geral Lynch. ‘Estende-se por pelo menos duas gerações de autoridades do futebol que abusaram de seus cargos para adquirir milhões de dólares em subornos e propinas, o que prejudicou profundamente multidão de vítimas, a partir das ligas juvenis (...) e fãs em casa de todo o mundo, cujo apoio faz com que direitos sobre competições sejam valiosos. O Departamento de Justiça Norte-Americano tem a intenção de acabar com tais práticas corruptas, com a má conduta, e (levar) malfeitores à justiça.’
O diretor da IRS-CI, Comey, disse que ‘(...) pagamentos ilegais, propinas e subornos se tornaram a forma de fazer negócios na FIFA.’ A acusação alega que entre 1991 e o presente, os réus e seus co-conspiradores, (...) comercializaram meios de comunicação e direitos de marketing associadas à Copa do Mundo da FIFA — a Concacaf Gold Cup, a Concacaf Champions League; a Conmebol/Concacaf Copa América Centenário, a Conmebol Copa América, a Conmebol Copa Libertadores e aCopa do Brasil, esta, organizada pela CBF. Outras alegações são subornos e propinas em conexão com o patrocínio da CBF por empresa sportswear dos EUA, à seleção do país anfitrião da Copa do Mundo de 2010 e eleições presidenciais da FIFA 2011. A procuradora declarou ainda que ‘as acusações (...) são apenas alegações, e os réus são presumidos inocentes, a menos e até que se prove a culpa.’ Lá, como cá, fica patente o cuidado com a presunção de inocência, mas lá, diferente daqui, ninguém vai responder em liberdade.
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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