Negócios da China


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Há alguns anos circulava entre nós a expressão “negócio da China”. Designava alguma transação fantasiosa, mirabolante, lembrando o país de antes de Mao. Com a visita do primeiro-ministro chinês Li Keqiang ao Brasil, ela se concretizou sob a forma de empréstimos, promessas de implementação de projetos de infraestrutura (ferrovias, gasodutos), transferência de tecnologia e compra de aviões da Embraer. Foi saudada como redenção de nossos males. 
 
No momento em que a economia brasileira sofre o impacto dos desmandos e da corrupção que tomou conta do país nos últimos anos, as benesses trazidas pelos chineses soam “como maçãs de ouro em salvas de prata” (Provérbios). O avanço chinês na América Latina, depois da ação sobre a África, inclui, além do Brasil, Chile, Peru e Bolívia. No caso brasileiro, os chineses nos brindaram com um pacote de negócios que soma U$ 53 bilhões e a promessa de constituição de um fundo bilateral da ordem de U$ 20 bilhões, destinado a amparar atividades produtivas. Maravilha! 
 
No entanto, certos pontos devem ficar bem claros antes de o Governo comemorar e vender ao povo brasileiro o grande negócio. A China tem como meta estratégica ser a primeira economia mundial. Já domina, mundialmente, a indústria de transformação e têm reservas monetárias de fazer inveja, oriundas de poupanças acumuladas há anos. Porém, precisa de alimentos e matérias primas para seguir adiante na estratégia de protagonismo internacional. Aí surge, claramente, a contrapartida exigida dos brasileiros: suprir os chineses de soja, minério de ferro e petróleo; em troca comprar produtos “made in China”, cuja entrada no país se dará pela Ferrovia Transpacífico, que servirá mais como porta de entrada para o que vem de lá do que para o escoamento de produtos brasileiros. Dois singelos detalhes chamam a atenção: os chineses vão cumprir a palavra? E a indústria brasileira, que está mal, como fica?
 
Vicente P. Oliveira
Economista - FEA-USP

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