“Logo, tantos países vão legalizar que a proibição local será inútil”


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Queria dar o estatuto de discussão acadêmica a um tema panfletário e escrever um livro que trouxesse informações históricas sobre um problema importante das sociedades contemporâneas”
Queria dar o estatuto de discussão acadêmica a um tema panfletário e escrever um livro que trouxesse informações históricas sobre um problema importante das sociedades contemporâneas”
À primeira vista, um livro que trata da história da maconha, com fragmentos desmistificando sua origem e sobre como ela passou de subversiva a oportunidade de negócio, pode causar estranhamento. Os argumentos e a linha do tempo narrada mostram que, graças à sua história e surgimento, a maconha vai além de drogas, tratamento de doenças e algo utilizado por ociosos. Entretanto, nem de longe, é um documento que levanta bandeiras ou busca polêmicas. É, como define o próprio autor, “uma obra acadêmica e informativa”. Jean Marcel Carvalho França, o autor de A História da Maconha no Brasil, teve a ideia de reunir documentos enquanto pesquisava sobre o Brasil colonial e imperial. O mestre em sociologia e doutor em literatura comparada tem livre docência na área de história, um título que se obtém em uma fase mais avançada da carreira acadêmica. Aos 49 anos e autor de 15 livros publicados, com mais um para ser lançado no final do ano, Jean quer, em suas obras, contar a história da formação da sociedade brasileira, seus tipos sociais e valores culturais para, assim, contribuir com soluções de problemas importantes da sociedade. Ele revela ao Comércio, nas linhas abaixo, um pouco de seu trabalho mais recente, sobre a história da maconha.
 
Quanto tempo levou para coletar as informações, reunir este material e escrever?
Ao todo, três anos, mas sempre com a ajuda de um auxiliar de pesquisa, Rafael Afonso Gonçalves, doutorando da Unesp, que me acompanha há três livros.
 
Por que decidiu escrever o livro A  História da Maconha no Brasil?
Foi uma conjunção de fatores. Ao longo das minhas pesquisas sobre o Brasil colonial e imperial, me deparei com diversos documentos com menções ao cânhamo (maconha). Ao mesmo tempo, detectei que, embora de uma forma bastante silenciosa, o hábito ou vício do canabismo (hábito de fumar ou mastigar maconha) tinha ocupado um lugar bastante significativo na formação da sociedade brasileira, maior do que nas sociedades europeias ou da América do Norte. Devo, ainda, acrescentar à lista mais dois componentes: queria dar o estatuto de discussão histórico acadêmica a um tema muito panfletário e escrever um livro que trouxesse informações históricas para o leitor sobre um problema importante das sociedades contemporâneas. É um livro informativo. Quem ler em busca de uma posição contra ou a favor da cannabis e do canabismo irá se frustrar.
 
Quanto tempo levou para coletar as informações, reunir este material e escrever?
Ao todo, três anos, mas sempre com a ajuda de um auxiliar de pesquisa, Rafael Afonso Gonçalves, doutorando da Unesp, que me acompanha há três livros.
 
Qual é, de fato, a história sobre o surgimento da maconha em nosso país e de onde veio?
O hábito de consumir cannabis no Brasil tem uma dupla origem: escravos da África, que conheciam a cannabis e o canabismo, um hábito que chegou ao continente africano vindo da península arábica; e marinheiros portugueses, que conheceram o haxixe, um modo de preparar a cannabis, sobretudo para comer ou beber nas suas passagens pela Índia, onde o consumo da droga fazia parte da cultura local. Depois de introduzido no Brasil, seu consumo manteve-se, pelo menos até o século XIX, bastante restrito aos mesmos grupos: marinheiros e descendentes de escravos.
 
Qual a diferença entre as visões que a sociedade criou sobre a maconha ao longo dos tempos, desde o início de sua história?
É uma história longa e variada. A grosso modo, a maconha começa a se tornar um problema social, com implicações para a saúde e para segurança públicas, a partir das décadas iniciais do século XX. Antes disso, é um hábito de pessoas de poucas posses, pessoas que não tinham meios de adquirir, para o seu lazer, nem a popular cachaça nem o refinado e mais caro tabaco.
 
O que acha que é necessário para desmistificar a maconha no Brasil?
O Brasil é um país que tem horror ao liberalismo, somos adeptos de um coletivismo estatista, que julga normal e legítimo o Estado opinar sobre tudo e cuidar da vida de todos nos mínimos detalhes. Damos pouco valor ao mérito, à privacidade e, sobretudo, aos denominados direitos individuais (aborto, eutanásia, uso privado de drogas e derivados). Não chegamos nem mesmo a sentir falta deles. Creio que a mudança, em razão dessa aversão ao liberalismo e à dificuldade secular que temos em discutir temas polêmicos, virá impulsionada por ventos do exterior: em poucos anos, serão tantos os países ocidentais a legalizarem de algum modo o consumo da cannabis, que a proibição local será inútil, caricatural e, sobretudo, um mal negócio.
 
Qual sua opinião sobre a legalização? Acha que acontecerá em breve no nosso país, como no Uruguai?
Creio que temos de encontrar meios do Estado gastar menos dinheiro com o combate ao consumo de drogas, reduzir os índices de violência das periferias das cidades grandes e médias do país, diminuir a população carcerária e apartar o consumidor de drogas do mundo do crime. As soluções mais plausíveis que o mundo civilizado vem encontrando para problemas tão complexos têm, de algum modo, passado pela regulamentação do consumo de drogas. Teremos cedo ou tarde, de optar por um caminho.
 
O que pretende mostrar com sua obra?
Descrevo a história de um hábito que, com o tempo, passou a ser encarado socialmente como um vício. Há dezenas de estudos parecidos pelo mundo afora, sobre o consumo do ópio, do tabaco, e do álcool. Quem passar os olhos pelo livro rapidamente verá que não se trata de uma obra opinativa, com posições polêmicas. Dou um tratamento acadêmico para um tema popular e controverso. Talvez esta seja a inovação do livro.

No livro, você afirma que a maconha é uma planta com grande potencial econômico, logo, tem potencial de mercado. Em quais áreas a maconha pode atuar, além da saúde?
A bem da verdade, não sou eu que digo isso, mas, sim, um estudo recente da respeitadíssima London School of Economics, que afirma haver um mercado potencial para a maconha no mundo que pode chegar a US$ 110 bilhões, quatro vezes a receita gerada anualmente pela indústria do tabaco.

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