A lembrar Vinicius de Moraes (1913-1980), trinta e cinco anos de sua morte.
Um caminho se faz no tempo e no espaço.
E no coração...
Caminha-se para algures, alhures, sem intenção, sem definição de destino. Caminha-se no tempo, às vezescomo barata tonta, a ziguezaguear no passado presente futuro.
Às vezes a gente determina o ponto de origem e o ponto de chegada e o caminho se faz entre, a definir distâncias geográficas ou temporais. Mas é complexo definir distâncias afetivas.
Um caminho se faz ação e se faz substantivo.
Um caminho pode virar caminho da roça, mas o caminhante vê o seu diferente do de outro caminhante, ao lado. Para um há árvores atrás das curvas; outro sente espinhos cravando os pés; aquele vê os pássaros cruzando os ares; outros olham somente para o chão, sombrios; e há os que não se apercebem da sua posição. Os caminhos se tornam labirínticos, e singulares, pelos afetos.
Se eu volto o caminho, vejo-o com os mesmos olhos? SE nunca mais lá passo, como recordá-lo?
Um passo depois do outro, defino rotas, desvios e paradas, prevejo traições e armadilhas, o “bem-me-quer” e “malmequer” que (a)guardam os caminhos.
Diferente aquele que sobe a montanha para descer do outro lado, do que a contorna, ou a escava e constrói dentro - um túnel. Diferente o esforço de escalar, contornar, explodir a pedra a tolher a passagem.
O caminhar tardio ou madrugador, de tempo a outro tempo, até o nada absoluto, a morte, mistura distâncias, destinos e origens. O agora é o caminhar para a distância do agora há pouco. O agora, ao escrever este texto, já passou.
Somos passageiros, de lugar a lugares, de tempo a tempos, de afeto a afetos. Não há espaço imobilizado, tempo congelado, afeto congelado. Diz-se: “ao deus dará”.
Adeuses se confundem com saudações de chegada.
Quando se vai por um caminho, qual a distância que cabe na volta? Se é que há volta, ou se meramente a chamamos assim, “volta”, qual a distância que se tinha em mente ao ir? Como medir?
Os caminhos conduzem à distância conforme narro a trajetória, a mim mesma. Às vezes a narrativa vem sem rosto nem forma, rude esboço. Outras vezes a narrativa exprime em filigranas o que se é.
Narrativas de caminhos percorridos mudam o caminhar.
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