Política como não se faz


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Em um passado não muito remoto, a ditadura militar que dominou o País por cerca de vinte anos perseguia implacavelmente os seus opositores. Não era permitido ter uma opinião contrária ao regime vigente e as vozes eram caladas à custa de pressão, ameaças e até prisões. Muitos foram presos, a maioria deles torturada, quando não assassinada nos porões da ditadura. O mesmo ocorre atualmente em outros países, governados autocraticamente, como a Rússia de Vladimir Putin. 
 
Guardadas as devidas proporções, a Câmara Municipal de Franca utiliza-se da mesma prática, diante do pedido de abertura de uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) para apurar uma doação ao vereador Márcio do Flórida (PT), em sua campanha a deputado estadual do ano passado. Tudo por causa de uma doação, que lhe foi repassada por candidatos a deputado federal com os quais fazia “dobradinha”. O dinheiro, declarado como manda a lei, vinha da empreiteira UTC, uma das acusadas pelo petrolão (esquema de distribuição de propinas descoberto na Petrobras). Como se pode perceber, a Câmara Municipal de Franca -- que permite a um vereador tentar subornar um munícipe manter-se no mandato e só suspender outro que desferiu um tapa na cara de outro cidadão dentro do plenário -- continua agindo sob as ordens do prefeito Alexandre Ferreira (PSDB). A maioria dos parlamentares, as “vaquinhas de presépio” do chefe do Executivo francano, segue o roteiro traçado no Paço Municipal.
 
No caso de Márcio do Flórida, percebe-se que a oposição legítima e combativa contra uma administração cercada de denúncias e inquéritos abertos para apurar irregularidades, é tratada com revanchismo, repetindo práticas de uma política que não deveria existir mais. Além dele, os outros dois legisladores que fazem oposição sistemática ao prefeito podem colocar a barba de molho: há informações de que a base de Alexandre Ferreira já se movimenta para “enquadrar” Valéria Marson (PSDB). Falta ainda Daniel Radaeli (PMDB), outra das vozes lúcidas da Câmara que não se curva aos interesses do prefeito municipal.
 
Abrir uma CEI contra Márcio do Flórida por causa da doação é o mesmo que culpar a janela pela paisagem. Mas não se estranha, partindo de quem partiu. O que preocupa, diante dos casos das CEIs dos Ônibus e da Saúde e os processos contra Luiz Vergara (PSB) e Laércio Matias, o Laercinho (PP), é que se monte mais uma farsa e a decisão final acabe contrariando as boas práticas políticas e de julgamento. Nisso a Câmara Municipal atual é pródiga. Reina, em todos os fatos que envolvem os seus membros, a prática do ódio, da retaliação e do destempero que permeia a administração municipal. Como no recente caso da greve dos servidores, não há negociação. Reina ali uma completa distorção do antigo ditado: aos amigos (e apaniguados) tudo; aos inimigos, qualquer punição mesmo que seja injusta. Os francanos saberão responder, com bastante clareza, nas eleições do ano que vem, o que pensam dos vereadores que foram eleitos para defendê-lo e hoje só fazem o que o prefeito quer, perseguindo seus próprios colegas.
 
 
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