‘Casos de depressão preocupam. Será ela, realmente, a doença do século?’


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SAÚDE MENTAL Diretor técnico do hospital Allan Kardec afirma que o jeito de viver atual pode ser fator de peso para que a depressão seja doença prevalecente em poucos anos
SAÚDE MENTAL Diretor técnico do hospital Allan Kardec afirma que o jeito de viver atual pode ser fator de peso para que a depressão seja doença prevalecente em poucos anos
O título indagatório é proposital. Seria a depressão, realmente, a doença do século? Em meio a tantas enfermidades as quais o ser humano está sujeito, será mesmo uma patologia de ordem psíquica a algoz que castigará a humanidade no século 21? Para entender mais sobre a real relevância da depressão, a reportagem do Comércio conversou com o diretor técnico e clínico do hospital “Allan Kardec”, centro de referência em saúde mental em Franca.
 
Aos 66 anos, o clínico geral especializado em psicossomática, Roberto Terumi Takaoka, vê o atual estilo de vida, aliado a outros fatores, como uma das causas que contribuem para engrossar as estatísticas dos casos de depressão. Do alto de seus 41 anos de experiência em medicina, ela afirma que deixar a vida mais leve é um viés importante para tentar fugir da doença.
 
A casa sob sua direção técnica e clínica tem em seus leitos 200 pacientes e, conforme dados do último mês de abril, 23% dessas internações foram motivadas direta ou indiretamente por quadros depressivos. Entre os pacientes que passam diariamente pela clínica (hospital dia), o índice de causas relacionadas à depressão é maior: 32%.
 
Para descrever a depressão, Takaoka endossa a definição da OMS (Organização Mundial da Saúde), que cita a depressão como um transtorno mental comum, caracterizado por tristeza, perda de interesse, ausência de prazer, oscilações entre sentimentos de culpa e baixa autoestima, além de distúrbios do sono ou do apetite. Também há a sensação de cansaço e falta de concentração. Outra característica é que a depressão pode ser de longa duração ou recorrente e, em sua forma mais grave, pode levar ao suicídio.
 
Ainda segundo a OMS, 350 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo. Takaoka cita um levantamento que mostra que, em 2013, morreram no Brasil 15 mil vítimas de Aids, enquanto o suicídio (em 90% dos casos ligados à depressão grave) foi a causa da morte de 10 mil pessoas. “Há programas de prevenção de DST/Aids, mas não há programas de prevenção de doenças mentais”, disse. Confira abaixo a entrevista completa com o médico.
 
Além das características citadas, como tristeza, desinteresse, entre outras, como o senhor define a depressão?
Todos temos tristezas no dia a dia, que passam rápido. Geralmente dão como referência para caracterizar a depressão aquela “tristeza” acima de duas semanas. Passados 15 dias, pode começar a pensar em uma depressão caracterizada, diferente de uma tristeza corriqueira. O profissional vai precisar saber diferenciar. Tem depressão leve, moderada e grave. 
 
Existem fatores que disparam o processo depressivo?
São várias coisas. Mas as mais comuns são: solidão, falta de apoio social, pessoas reféns de um estilo de vida estressante, problemas de relacionamento, tensão financeira, trauma ou abuso na infância, uso de álcool ou de drogas, situação de desemprego ou subemprego, problemas de saúde, além da questão genética e do histórico familiar.
 
Todos nós estamos sujeitos a esses problemas, um deles ou vários ao mesmo tempo. Por que alguns desenvolvem a depressão e outros não? Tem relação com a questão genética que o senhor citou?
Aqui nós pesquisamos o histórico familiar, mas não damos isto como a causa definitiva. Seria uma das causas ou um fator predisponente. Com a experiência que temos, não dá para falar que não tem relação com o histórico da família. Quando tem muitos casos de depressão na família, é bem provável que seja (de causa genética). Mas, por outro lado, nem todos que têm a depressão, são casos hereditários, ele pode ser o primeiro.

O senhor concorda quando afirmam que a depressão será tida como a doença do século? Os casos estão realmente crescendo ou há mais diagnósticos?
No mundo inteiro, em torno de 5% da população tem depressão, são 350 milhões de pessoas. No Brasil esse percentual vai para 10%. Há estudos que mostram que no ano de 2030 a depressão vai ser a doença mais prevalecente. A tendência, pelo modo de vida que se leva atualmente, é aumentar. Uma das causas é a questão do consumo. A gente é bombardeado o tempo todo por propagandas e por tudo o que acontece no mundo. A propaganda é muito forte em cima de tudo. A indústria tem que produzir o máximo o tempo todo. Vemos os pátios das montadoras lotadas, quem vende tem que atingir metas, tudo gera uma pressão muito grande. Gerentes de bancos têm que atingir metas e ficam sob pressão. Do ponto de vista mental não é bom estar sob pressão o tempo todo. Todas as atividades e a sociedade de um modo geral têm fatores ambientais que influenciam (para o desenvolvimento de quadros depressivos). 
 
O próprio paciente é capaz de perceber quando precisa de ajuda?
Quem vai perceber normalmente são familiares ou amigos, e não a própria pessoa. Pode ser que ela tenha um mecanismo e perceba que está esquisita, mas quem está perto é que vê. Um exemplo é uma pessoa que saía com os amigos e, de repente, começa a negar, negar. O entorno percebe mais. Da mesma forma, o tratamento para a depressão não é só do paciente. Quem está em volta tem que se envolver.
 
Em que momento se torna claro que a depressão está causando outros prejuízos mais sérios para a saúde física?
A pessoa deprimida tem comprometimentos. Há, inclusive, uma depressão que não é a clássica, essa que todo mundo percebe. Tem uma depressão mais sutil, chamada depressão essencial. Em um primeiro momento ela não é grave, mas pode se tornar. Pode acarretar uma doença física grave, como câncer ou uma coronariopatia. Esta é uma linhagem de pesquisa. É quando a depressão mata, sem ser um suicídio. Um exemplo pode ser o de uma pessoa briguenta. Por exemplo, de repente acontece alguma coisa que todos pensam que ela vai brigar e ela passa sem se importar com aquilo. Pode ser por causa de uma depressão essencial.
 
Dê um exemplo prático de quão incapacitante pode ser um quadro depressivo.
A depressão grave é 100% incapacitante. Na depressão leve, a pessoa pode ir levando, mas pode também evoluir para uma situação mais grave. A depressão grave é quando a pessoa está pensando em morte, aí tem que ter uma intervenção. Geralmente os pacientes verbalizam o sentimento de morte, a vontade de se matar. Eles não vão lá e fazem, caso contrário não salvaríamos nenhum. E, quando verbalizam, ninguém vai ficar pagando para ver. 
 
A partir de que idade é possível fechar um diagnóstico de depressão? 
Há em crianças. Há, inclusive, estudos que mostram casos de adultos que foram diagnosticados como crianças hiperativas no passado e que, na verdade, já era um início depressão. O diagnóstico é bem difícil. Quando é a depressão clássica, que a criança fica triste e todo mundo vê, é mais fácil. Tem que ter auxílio profissional.
 
As mulheres realmente são mais susceptíveis a quadros depressivos?
Sim, a depressão é predominante em mulheres, geralmente em idade adulta. Os estudos abordam muito a questão hormonal, porque a diferença (na quantidade de pacientes mulheres e homens) é razoável. Então os estudos indicam a direção da questão hormonal, embora não seja possível falar que seja somente isso. 
 
Diante da eminência de uma depressão, qual é a recomendação inicial: consultar um psicólogo ou médico psiquiatra?
Tudo hoje envolve equipe. Não há profissional que faça tudo sozinho. Se não lançar mão de uma equipe multidisciplinar, ficamos “capengas”. Temos que abordar tudo e ninguém é Deus. Se for algo mais leve, pode ir a um clínico bem formado, um psicólogo também pode abordar, a própria assistente social pode acompanhar. É preciso uma equipe que consiga lidar com isso, com o caráter psicossocial disso. Aqui no hospital, como os casos são de internação (e não de ambulatório), pegamos apenas os pacientes mais graves. Aqui chegam os potencialmente mais graves, aqueles que tentaram o suicídio, ou que estão verbalizando o suicídio.
 
Como a família de um paciente depressivo deve se comportar? Sabemos que diante de uma falta de reação ao tratamento, é comum que os familiares se chateiem por entender que o doente não está colaborando. 
O tratamento deve envolver o entorno, tem que ser multidisciplinar. Se não tiver essa abordagem, o tratamento fica sem um pé. Ninguém (familiares) sabe como fazer, e é preciso fazer. A equipe multidisciplinar pode auxiliar com informações. Assim como em casos de dependência química, há muito preconceito com o depressivo. 
 
A depressão realmente é uma doença crônica? É possível falar em cura?
Não falo em cura. Como em toda doença crônica, é preciso ter controle. Aquele que necessita da medicação, se tratar-se direito não vai ter a crise. Mas acontece de a pessoa ter um surto e nunca mais ter outro. Mas grande parte vai tendo em ciclos, é recorrente, que é o mais comum aqui no hospital.
 
Quais as opções de tratamento para os diferentes graus de depressão?
Geralmente, em casos leves, o tratamento é psicossocial, com um médico clínico geral e não envolve medicamentos. Os moderados já envolvem medicação, que pode ser feita por um clínico - geralmente é o psiquiatra, mas não necessariamente. Os mais graves precisam ser encaminhado para setores especializados e de referência, e tem que ter um psiquiatra acompanhando, com tratamento medicamentoso. A ampla maioria dos casos de internação envolve risco de suicídio.
 
É possível superar sozinho uma depressão?
Possível é, mas acho que é a exceção da exceção, da mesma forma que têm dependentes químicos muito pesados que, de repente, param. Exige muito sacrifício e esforço. É uma doença que realmente precisa ser olhada com muito carinho. Há um prejuízo na vida pessoal e profissional.
 
Enfim, o que é possível fazer para tentar evitar a depressão?
Não tenho fórmula. É preciso estar aberto para as informações, mas necessário ter crítica sobre isso sempre. Devemos fazer coisas o menos alienantes possível. No caso das crianças, os pais, a família e a escola têm papeis fundamentais, devem oferecer atividades e espaços que fujam só do celular (do mundo digital, fatigado de informações). É preciso ter espaços para pensar. Na sociedade de consumo, a gente tende a consumir cada vez mais e, às vezes, estamos alienados sem saber. É preciso parar a vida e pensar um pouco. Precisamos deixar a vida mais leve. As pessoas não se contentam com o que têm, estão sendo bombardeadas com propagandas para tudo o tempo todo. De maneira geral, é o estilo de vida que temos hoje (que pode levar à depressão). A necessidade de “ter” leva à frustração, pois o dinheiro é limitado para a ampla maioria da população. Se a pessoa não tem recursos mentais para poder resolver essas frustrações, pode apresentar depressão.

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