Eu morava em Cássia quando o poeta Wilson Alvarenga Borges, então residente na Cidade do Rio de Janeiro, fez uma visita à sua terra natal. Fui então apresentado a ele por um amigo – Edson Marcharré – e primo do escritor.
- Esse aqui também escreve, Wilson.
Quase morri de vergonha, expliquei que não compunha poemas, não escrevia contos, não escrevia crônicas.
- Escrevo nada.
Falei que eu apenas tinha mania de registrar idéias, utilizando somente um punhadinho de palavras.
Foi pior. O poeta ficou curioso, fez-me assumir compromisso de ler para ele, no dia seguinte, duas ou três composições minhas.
Li, ele ouviu atentamente, foi franco, asseverou que, com muito trabalho, eu poderia desenvolver. Disse mais: o que eu pensava estar inovando, já era feito por Aníbal Machado, no Rio de Janeiro, já fora feito por poeta francês. Recomendou-me a leitura de Cadernos de João.
Aceitei o conselho.
Quase decorei aquele livro e, ainda por cima, li, do mesmo autor, o romance João Ternura e o conto Viagem aos seios de Duília. A leitura daquelas obras foi de grande valia nos meus primeiros passos. O engajamento político e social, no entanto, conduziu minha literatura para o romance e para a novela. A reflexão filosófica orientou-a para o conto. O lirismo e a alegria impeliram minha produção literária para a crônica. Apesar disso, nunca me desapeguei do ímpeto inicial, nem da influência daqueles Cadernos.
E eu abençôo a intuição e a influência.
Graças a ambos, apesar dos atalhos, das encruzilhadas, dos descaminhos tantos, palmilhei sempre as estradas preconizados pela intuição e por aqueles exemplos.
Graças a eles, ultimo meu terceiro livro só de textos curtos.
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