As pessoas certas no lugar certo evitaram que uma tragédia maior acontecesse em Franca na noite do último sábado. O acidente no Parque Universitário, que matou o microempresário calçadista Vanderlei Pires, 36, devido à queda do carro em uma lagoa de contenção de água da chuva, poderia ter deixado um saldo de cinco mortos se não fosse o preparo de Rafael Rosa Gasparini, 24, e Thales Ravagnani, 30.
Ambos passavam por acaso pelo local. Resolveram olhar a represa por curiosidade. Avistaram o veículo sendo encoberto pela água barrenta. Conseguiram retirar os sobreviventes das ferragens, evitando que se afogassem, e conseguiram salvá-los fazendo respiração boca a boca e massagens cardíacas.
O relato dos amigos é emocionante. Eles não têm dúvidas que foi obra de Deus passarem por aquela região na hora do acidente. Rafael e Thales são professores de educação física e aprenderam técnicas de primeiros socorros na universidade.
O acaso
Rafael, a noiva, Janaina Mateus, o amigo Thales e a mulher dele, Natália Lima, haviam saído para jantar em um restaurante de comida japonesa na avenida Paulo VI. Em seguida, acompanhados das mulheres que são fisioterapeutas, foram passear pela região do Parque Universitário e decidiram conhecer os condomínios que estão sendo construídos no bairro.
Quando seguiam em um Gol pelo prolongamento da avenida Armando de Sales Oliveira foram ultrapassados pelo Prisma, que cairia segundos depois na lagoa. “Ele passou pela gente em alta velocidade. Estava muito, muito rápido mesmo, depois, já sumiu na nossa frente. Não vimos o acidente”, contou Rafael.
Os amigos fizeram a conversão à direita, seguiram mais alguns metros pela avenida até decidirem retornar. Na volta, o espírito de aventura de jipeiros que são, fez com que parassem, justamente, no local do acidente. “Sempre tive vontade de passar com o jipe dentro da represa e paramos para ver como estava, pois a gente gosta de barro e água. Quando olhamos, o carro estava de ponta-cabeça”, contou Rafael.
O socorro
Os dois desceram correndo do Gol e, imediatamente, sem tirar os calçados, pularam na água cheia de barro. Se depararam com um homem do lado de fora. Eles não imaginavam, mas havia mais quatro pessoas presas dentro do Prisma. “O homem gritava socorro, socorro, socorro. Ele disse: ‘Tem mais gente dentro do carro, o carro está lotado, inclusive, tem criança’. Foi quando bateu o desespero. Não pensamos duas vezes e entramos. Conseguimos passar a mão na lataria, achamos a maçaneta e conseguimos abrir. A água já estava tomando conta do carro”, lembra Thales.
Em meio à escuridão e com a água batendo no peito, eles foram tateando os bancos e assoalhos para tentar encontrar alguém. Tiraram as vítimas, uma de cada vez. “Estavam todos apagados. Graças a Deus, tivemos a experiência de poder aprender a recuperação cardiopulmonar e usar na prática. Fizemos massagem cardíaca, respiração nos três que saíram primeiro. Foi difícil, mas eles acordaram”, disse Thales. “Temos noção de primeiros socorros, mas acho que não era a gente que estava ali. Fomos comandados por Deus. A força para ajudar o próximo estava com a gente. Nem pensamos”, continuou.
Com a ajuda de outras pessoas que chegaram, eles conseguiram tirar as vítimas do barranco de cerca de dois metros. Os amigos não imaginavam, mas ainda faltava o motorista. “A gente já estava desistindo, sem forças, esgotados. Fizemos muita força, era muita lama. De repente, já de fora, vimos a luz de freio piscando. Não pensamos duas vezes e voltamos para a água novamente”, relembra Thales.
Auxiliados pelas duas pessoas que haviam chegado, avistaram o motorista Vanderlei Pires. O empresário estava preso entre o banco e o volante, que havia quebrado e, não, pelo cinto de segurança, como foi cogitado inicialmente pelos familiares. “Ele ficou muito tempo debaixo da água. Puxamos a alavanca e o banco desceu. Foi quando saiu. Tentamos fazer a recuperação, fizemos boca a boca. Ele chegou a vomitar. Tínhamos a esperança de que ele conseguisse sair com vida. Fizemos o possível. Neste momento, os bombeiros chegaram”, disse Thales.
Os amigos calculam que tenham feito os trabalhos de resgate entre 30 e 40 minutos até a chegada dos bombeiros. Durante este tempo, Janaína e Natália ficaram auxiliando sobre o barranco. “Foi uma situação de pânico muito grande. Estávamos muito nervosas tentando contato com os bombeiros. A cada vez que os meninos tiravam uma vida e a gente conseguia ressuscitar, trazer ela de volta, a gente agradecia muito a Deus. Demorou muito para a ajuda chegar. Ficamos 40 minutos sofrendo sozinhos, sem nenhum suporte”, disse Janaina.
Rafael acredita que, se não fosse a sua curiosidade de jipeiro, o desfecho da história poderia ter sido mais trágico. “Tenho certeza absoluta que todos teriam morrido. Eles viram a morte de perto. Ninguém iria ver e parar para ajudar. Eles tinham de dez a 15 minutos só mais de vida, que é o tempo máximo de ficar na água”, disse. “Todos teriam morrido, todos teriam morrido”, completou Janaina.
‘Herói, não’
Apesar do ato de coragem e solidariedade, eles não se consideram heróis. “Fomos guiados por Deus”, disse Janaína. “Herói, não. Foi mais por instinto mesmo”, avaliou Rafael. “Eu gostaria muito de ter salvado o motorista. O máximo de força que eu tinha, eu usei. Peço desculpas à família dele por não ter conseguido”, completou Thales.
No domingo, Dia das Mães, Isabel Radaeli, mãe de Rafael, publicou o seguinte texto no Facebook. “Meu filho Rafael/Janaina, o maior presente que você podia dar para sua mãe foi esse salvar vidas, você não tem noção do seu ato e do Thales e Natalia. Vocês salvaram quatro vidas e fizeram tudo o que dois homens de bem poderiam ter feito. Parabéns pelo heroísmo. Poucas são as pessoas que teriam coragem de entrar naquela água e tirar aquelas pessoas de lá. São realmente dois heróis. Parabéns, parabéns, parabéns beijos mil”.
Os sobreviventes passam bem. Único a ser internado, Carlos Mateus Firmino, 27, cunhado da vítima fatal, foi liberado duas horas após dar entrada na Santa Casa.
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