Escrevo com dois dicionários do meu lado, um deles é o imponente Houaiss, que me é inspirador não só pelas pequenas histórias que cada verbete me conta, mas pela lição engendrada na realização de qualquer grande esforço. Passo as páginas me perguntando como alguém, ou mesmo um grupo de alguéns, pode ter começado e terminado um serviço assim, sinto vergonha... Todo dicionário é difícil, conceituar é para gênios da clareza e concisão, não importa a área.
No ramo da gastronomia, tivemos há pouco um lançamento ambicioso, francês, naturalmente, que deve estar longe de ser exato, mas servirá de modelo aos próximos. É o Dicionário de Culturas Alimentares - pelo título, pode-se perceber que a intenção não é a tradução de nomes ordinários ao mundo da gastronomia, um utensílio, por exemplo, mas a conceituação de temas que relacionem a gastronomia com a cultura de determinado lugar. Segundo o autor Jean-Pierre Poulain, o que se quis foi construir uma rede de contatos para levar adiante o binômio cultura/alimentação.
O surgimento de um livro assim só é possível porque cresceu muito a produção intelectual e literária cujo tema é alimentação, por isso é importante firmarmos conceito sobre o que seja isso ou aquilo. No caso brasileiro, o dicionário traz a tradução de conceitos importantes para nós brasileiros: açaí, dendê, feijoada, mandioca, milho, caipirinha, autores como Câmara Cascudo. O autor passou algum tempo morando no Brasil e isso o ajudou a saber um pouco da cultura alimentar brasileira. E ainda que a grande maioria dos brasileiros não tenha ideia de quem foi Câmara Cascudo, ele está lá vivo na memória do mais novo projeto de conceituação alimentar.
Traduções
De outro lado, aqui, vários trabalhos científicos buscam traduzir nossos temas para outros países e assim corrigir deficiências que acabam por nos ridicularizar. Recentemente, pelo menos duas teses sobre a tradução da gastronomia saíram do departamento de Letras Modernas da USP.
Uma delas, de Rozane Rebechi, mostrou que até o próprio site do governo brasileiro comete erros inaceitáveis, como a tradução para a receita de: namorado ao forno (boyfriend in the oven), sanduíche de frios (bread with cold) ou ainda cravo da índia (harpsichord), esse último faz alusão ao cravo instrumento musical.
As expressões precisam se sedimentar, não sei se é bom ou ruim, mas a nossa castanha do Pará já virou por aí brazilian nut, é preciso correr para que os “outros” saibam que o Pará é do Brasil, mas tem uma gastronomia individualizada. E que castanha Baru é uma coisa, castanha do Pará é outra...
DICA DA SEMANA
Aspargos
Acho que teremos aspargos o ano inteiro e com preço razoável. Eles são fáceis de preparar, mas precisa saber, se errar o ponto, fica sem graça.
Primeiro se retira a película com um descascador de legumes, somente da metade para baixo. É preciso cortar a ponta mais grossa e fibrosa, que tem de dois a três dedos.
Para cozinhá-los é preciso ter uma panela grande que os acomode com folga. Coloque muita água, pouco sal e cozinhe por apenas dois minutos depois que a água ferver. Detalhe: só os coloque depois que a água ferver.
mas pela lição engendrada na realização de qualquer grande esforço. Passo as páginas me perguntando como alguém, ou mesmo um grupo de alguéns, pode ter começado e terminado um serviço assim, sinto vergonha... Todo dicionário é difícil, conceituar é para gênios da clareza e concisão, não importa a área.
No ramo da gastronomia, tivemos há pouco um lançamento ambicioso, francês, naturalmente, que deve estar longe de ser exato, mas servirá de modelo aos próximos. É o Dicionário de Culturas Alimentares - pelo título, pode-se perceber que a intenção não é a tradução de nomes ordinários ao mundo da gastronomia, um utensílio, por exemplo, mas a conceituação de temas que relacionem a gastronomia com a cultura de determinado lugar. Segundo o autor Jean-Pierre Poulain, o que se quis foi construir uma rede de contatos para levar adiante o binômio cultura/alimentação.
O surgimento de um livro assim só é possível porque cresceu muito a produção intelectual e literária cujo tema é alimentação, por isso é importante firmarmos conceito sobre o que seja isso ou aquilo. No caso brasileiro, o dicionário traz a tradução de conceitos importantes para nós brasileiros: açaí, dendê, feijoada, mandioca, milho, caipirinha, autores como Câmara Cascudo. O autor passou algum tempo morando no Brasil e isso o ajudou a saber um pouco da cultura alimentar brasileira. E ainda que a grande maioria dos brasileiros não tenha ideia de quem foi Câmara Cascudo, ele está lá vivo na memória do mais novo projeto de conceituação alimentar.
Traduções
De outro lado, aqui, vários trabalhos científicos buscam traduzir nossos temas para outros países e assim corrigir deficiências que acabam por nos ridicularizar. Recentemente, pelo menos duas teses sobre a tradução da gastronomia saíram do departamento de Letras Modernas da USP.
Uma delas, de Rozane Rebechi, mostrou que até o próprio site do governo brasileiro comete erros inaceitáveis, como a tradução para a receita de: namorado ao forno (boyfriend in the oven), sanduíche de frios (bread with cold) ou ainda cravo da índia (harpsichord), esse último faz alusão ao cravo instrumento musical.
As expressões precisam se sedimentar, não sei se é bom ou ruim, mas a nossa castanha do Pará já virou por aí brazilian nut, é preciso correr para que os “outros” saibam que o Pará é do Brasil, mas tem uma gastronomia individualizada. E que castanha Baru é uma coisa, castanha do Pará é outra...
DICA DA SEMANA
Aspargos
Acho que teremos aspargos o ano inteiro e com preço razoável. Eles são fáceis de preparar, mas precisa saber, se errar o ponto, fica sem graça.
Primeiro se retira a película com um descascador de legumes, somente da metade para baixo. É preciso cortar a ponta mais grossa e fibrosa, que tem de dois a três dedos.
Para cozinhá-los é preciso ter uma panela grande que os acomode com folga. Coloque muita água, pouco sal e cozinhe por apenas dois minutos depois que a água ferver. Detalhe: só os coloque depois que a água ferver.
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