‘Sei que não vou ressarcir ninguém com a vida, mas posso pedir perdão’


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A poucos dias do julgamento, vigilante que matou ex-companheira revela detalhes do crime que chocou a cidade. Disse que agiu num momento de ódio, mas que está “pagando” pelo que fez
A poucos dias do julgamento, vigilante que matou ex-companheira revela detalhes do crime que chocou a cidade. Disse que agiu num momento de ódio, mas que está “pagando” pelo que fez
Um crime que chocou a cidade há cinco meses está perto de ter um desfecho. Nesta terça-feira, será realizada a audiência de instrução para oitiva de testemunhas do processo que tem como ré a vigilante Elaine Cristina da Silva, 38. Ela está presa desde o dia 25 de janeiro por ter assassinada a tiros a sua ex-companheira, a policial militar Marcela Maria de Oliveira, 31.

A audiência é o último passo antes da Justiça decidir se a vigilante será levada à júri popular. É possível que o julgamento aconteça no mês de junho. Possível, também, que Elaine seja colocada em liberdade em pouco tempo. A Polícia Civil concluiu que a motivação do crime foi passional.
 
A vigilante e a soldado viveram juntas por seis anos. Em dezembro, Marcela acabou com o relacionamento e passou a namorar uma mulher de São Paulo. Na noite do crime, elas se encontraram em uma rua do Jardim Paineiras e discutiram. Elaine deu dois tiros no peito da companheira e tentou se matar com um tiro também no peito. Ela ficou internada na Santa Casa durante uma semana e recebeu alta no dia 1º de fevereiro. Em depoimento à polícia, disse que se sentiu traída ao ver a ex-namorada com outra e que acabou perdendo a cabeça.
 
A vigilante foi denunciada à Justiça pelo Ministério Público por homicídio simples. A acusação não encontrou agravantes no crime, o que significa dizer que, se condenada, a pena base não será aumentada. Elaine está recolhida em uma cela da cadeia do Jardim Guanabara com outras oito presas. Na quinta-feira, concedeu essa entrevista ao Comércio.
 
Como você está cinco meses após matar sua ex-companheira?
Me sinto mal, estou arrependida pelo fato. Não posso voltar atrás, não tem como me redimir, não tem como ressarcir uma família da qual eu tirei a vida de uma filha, de uma irmã dessa família. Não tem como eu fazer nada. Já estou pagando, vou pagar perante a lei, que é a lei dos homens. Quero sair daqui com a cabeça erguida para me dignificar de novo com meu trabalho, com as atividades sociais que sempre fiz. Pretendo voltar a ser a pessoa que sempre fui, digna, de caráter, honesta. Infelizmente, errei num momento de ódio, de raiva por estabilizar uma pessoa como eu estabilizei ela. Eu havia deixado de ver a mim mesma para poder ver ela. Eu estruturei ela. Se ela passou num concurso, eu que paguei o cursinho, cuidei do filho dela para ela estudar. Fui a estrutura, a educação do filho dela. Fui tudo e ela me pagou com total ingratidão.
 
Por que você matou a Marcela?
No dia do fato, se ela não tivesse sido tão agressiva... Se ela não tivesse desferido um tapa no meu rosto, talvez, não teria causado tanta fúria em mim como causou. A traição eu até teria aceitado porque todo mundo está sujeito a passar por isso. Só que foram três meses de traição, me enganando e levou a pessoa para dentro da minha casa. Eu estava no meu serviço, estava trabalhando.
 
Por que saiu do serviço e foi até a casa onde Marcela estava?
Chamei ela para ir comer um lanche e buscar um documento da minha mãe, que estava lá. Cheguei lá, me deparei com outra pessoa dentro da minha casa, na minha cama. A hora que fui reagir, as duas me agrediram. A pessoa que estava com ela, sempre se escondendo atrás da criança. Pegou o menino e fez de escudo, dominando minha casa. Andei com chinelo de dedo arrebentado para poder comprar uma casa com ela, para poder dar uma vida digna para ela. Fui agredida pelas duas. Não estou justificando meu erro. Errei, não tenho como fazer nada. Estou pagando.
 
Você foi na casa com a intenção de matar a Marcela?
Não, não fui disposta a matar ela. Fui lá buscar o documento da minha mãe, porque minha mãe é acamada. Convidei ela para comer um lanche, eu ainda não tinha jantado. Quando cheguei lá, deparei com as duas.

Precisava buscar o documento levando um revólver com você?
Não fui armada. Cheguei lá tranquila, sem nada. Ela me barrou no portão e não me deixou entrar. Disse que tinha alguém lá. Eu falei: “a casa é minha e tenho o direito de entrar. Se é amigo, vai estar na sala”. Quando entrei, não estava na sala. Estava na minha cama, no meu quarto. Não fui com essa intenção. Pedi para ela tirar a pessoa da minha casa, disse que ela não iria dormir lá. A outra moça era de São Paulo. A traição já vinha há algum tempo. Eu aqui em Franca cuidando do filho dela, cuidando da casa, das nossas coisas e ela fazendo o curso em Pirituba junto com essa pessoa, me enganando.
 
Ao ver sua companheira com outra mulher, você decidiu matá-la?
Não queria que aquela pessoa dormisse com ela na minha casa e tentei tirar, mas a Marcela não aceitava. Fui agredida por elas e me transtornei. Voltei para o meu serviço chorando demais. A cabeça ficou lá (na casa). Sem pensar, de nervosismo, peguei o armamento e fui lá para falar para ela sair. A intenção não era de matar. Era só pedir para sair. Elas estavam em duas e me agrediram. A Marcela estava fazendo curso e não tinha arma, mas eu não sabia se a outra pessoa também era da Polícia Militar e se estava armada. Então, me posicionei em ir (armada) porque fiquei com medo de ser alvejada pela pessoa. Eu estava transtornada. Me arrependo disto tudo. Na verdade, não merecia tudo isto. Só que foi num momento do ódio, da fúria de ter levado um tapa no rosto, de estar vendo uma pessoa em cima da minha cama, onde eu construi e sofri. Foi por ter sido enganada há três meses feito uma trouxa. Não era intenção nenhuma de matar. Aconteceu 

Depois que chegou lá, como foi? 
Peguei o armamento só para intimidar. Não tinha a intenção, mas quando cheguei, elas saíram no carro. Pedi para ela parar, mas não parou. Queria conversar e falar para a menina não ficar dentro da minha casa. Quando o carro parou, a menina fugiu e a Marcela desceu e veio me agredir de novo. Foi quando aconteceu o fato. Eu já tinha empunhado o armamento. Infelizmente, foi um ato muito errado.
 
Por que tentou se matar na sequência?
Tentei porque a dor era tanta... Hoje, não queria estar aqui falando com você. Deixei de viver eu, para viver ela e só recebi ingratidão. Colocou uma pessoa dentro da minha casa, na minha cama.
 
Como você se define?
Não sou uma má pessoa. Acredito no ser humano, acredito que eu possa, através do esporte, naquilo que sei trabalhar, nos projetos sociais que eu desenvolvia, ser possível dar uma visão de vida à essas crianças necessitadas que ficam nas ruas. Tenho alunos de aulas de capoeira, que já são homens hoje, que fazem o mesmo trabalho que eu fazia. Começaram comigo meninos e trabalham em projetos sociais. Eles dizem que, se não fosse eu, talvez, não seriam os homens de bem que são hoje. 

Acredita que conseguirá voltar a fazer o que fazia antes,  quando pagar o deve à Justiça?
Eu pretendo, mas o preconceito da sociedade é muito grande. Penso muito neste fato. Para retornar à sociedade, vou ter que enfrentar um preconceito muito grande. Querendo ou não, a sociedade acaba sendo hipócrita. Um dia, fiz algo de bom. Mas, se hoje fiz um erro, vou ser mais martirizada pelo erro do que pelas coisas boas que fiz. Não sou do mal, não faço coisas ruins. Trabalho e tenho uma vida digna, sempre me dignifiquei com meu trabalho, tenho orgulho do que faço, de ser a pessoa simples e humilde que sou. Se eu ganhar R$ 500 ou R$ 100 honestos, é com estes R$ 100 que vou me dignificar. Quero retomar minha, sim, vou andar com minha cabeça erguida. Tive um erro, infelizmente, mas estou pagando. Estou sendo julgada, estou sendo condenada. Depois que eu pagar isso, somente Deus vai poder me julgar. O meu direito quanto cidadã,  vou retomar. Sei que muitos desejam que eu fique presa, principalmente os familiares. Nada mais justo. Errei e vou pagar, mas quando puser os pés para fora, vou retomar minha vida. Se não morri quando dei um tiro no meu peito, é porque Deus tem plano na minha vida.
 
Como é sua rotina na cadeia. Já se adaptou à prisão?
Não tem como se adaptar. Mas onde entro, entro com humildade e respeito para ser respeitada. Aqui não tem muitas atividades. Fico mais no meu canto. Minha cabeça é 24 horas neste pensamento, neste fato, neste sofrimento. São 24 horas lembrando dela, lembrando do garoto que eu tinha como meu filho e não vou poder ter mais. No momento, divido a cela com mais outras oito presas, mas já chegou a ter 13.
 
O relacionamento entre vocês é pacífico?
É tranquilo, tem respeito. Tem que ter o respeito. Aqui dentro tem disciplina, respeitamos uma a outra. Nada é na briga, tudo é conversado. Não é com agressão que se resolve. O convívio entre pessoas não é fácil, sempre tem as diferenças. Lá dentro, tem as diferenças, porém, temos que aceitar e respeitar para poder conviver bem.
 
Você espera ser perdoada um dia?
Pedir perdão neste momento, sei que muitos não aceitariam, principalmente, os familiares (da Marcela). Não tem como eu tirar essa dor deles, mas estou firme com Deus, sei que Deus me perdoou, estou pedindo perdão a Deus. Errar, todo mundo erra. Foi num momento de raiva, num momento de fúria que aconteceu. Sei que não vou ressarcir ninguém com a vida, mas posso pedir perdão. O arrependimento é grande, é enorme. Só Deus para me julgar.
 
Ainda gosta da Marcela?
Sim. Amo muito. Acho que nunca vou conseguir tirar este sentimento do meu peito.

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