Em crônica recente, onde escreve a respeito da importância e do significado da leitura sobre a mente, as aspirações, os sentimentos e as ideologias do leitor, o jornalista João Pereira Coutinho refere-se à biblioteca de Hitler, composta por 16 mil volumes, e aos livros que influenciaram o Führer: alguns de pensadores clássicos como Nietzsche e Schopenhauer; outros de escritores menores, como um tal Madison Grant, que esteve no Brasil avaliando negativamente o processo de miscigenação de raças.
Sem outro objetivo que não seja o de situar num espaço de tempo e interesse dois homens cercados por tantos volumes, me vi pensando no historiador Sérgio Buarque de Hollanda, que como Sergio Hollander é um dos personagens centrais do romance O Irmão Alemão, o quinto de Chico Buarque de Hollanda. Lançado no final de 2014, exibe evidentes traços biográficos, a começar pela forma como o narrador em primeira pessoa situa este leitor encerrado nas páginas dos livros assim como no pijama confortável, roupa com que gosta de ficar em casa, reclinado na cadeira, sempre lendo, sempre absorto, sempre alheio à realidade que o circunda. Em algumas entrevistas de décadas passadas, Chico se referiu ao pai silencioso, cujos olhos devoravam as palavras impressas mas pareciam inapetentes em relação às demandas dos filhos ainda crianças à sua volta.
O irmão alemão, objeto de busca do narrador, nasceu em 1930, e foi entregue pela mãe um ano depois à Secretaria da Infância e da Juventude do distrito de Tiergarten, Munique. Fruto de relacionamento de Sérgio com a jovem Anne Margrit Ernst, a criança foi registrada como Sergio Georg Ernst e, quatro anos após, como Horst Günter, pelo casal que o acolheu . Dele o pai só tomou conhecimento no Brasil, país ao qual retornara depois de matérias jornalísticas que escrevera na Europa. Em carta, o tutor municipal de Munique, com o cumprimento alemão “Heil Hitler”, lhe pedia provas documentais que comprovassem não ter o menino sangue judeu. Era a exigência para que fosse legalmente adotado.
No blog da Companhia Das Letras, editora que publica Chico Buarque, há um vídeo do escritor lendo um trecho do novo livro definido como “um romance em busca da verdade e dos afetos”. Parece uma frase banal. Mas para quem conclui a leitura do romance, torna-se exatamente a melhor e a mais emblemática descrição da obra. A verdade é perseguida da primeira à última página e com ela a procura dos afetos se torna uma quase obsessão.
Com admirável domínio sobre a frase e o ritmo; e com aquela intrínseca característica que privilegia a oralidade, um tanto à maneira de Saramago, o narrador traz à tona, todo o tempo, senso de humor peculiar que em alguns momentos beira o sarcasmo, em outros esbarra na ironia, vez ou outra ( especialmente quando perfila a mãe) assume jeito caricato e pode descambar para o picaresco. O humor em suas diferentes facetas é, sem dúvida, uma das forças de O Irmão Alemão, que se tece como uma obra cubista, decompondo e recompondo partes a partir de um duplo- o irmão brasileiro e o meio irmão alemão. E se desdobra igual à dobradiça, segundo o grande crítico que é José Castello. Ele descreve a estrutura narrativa como “duas chapas de tamanho e forma semelhantes- ora encaixadas em fatos, ora erguidas sobre as sombras não menos verdadeiras da imaginação (...) Fantasmas- visões- se espalham pelas páginas. O que confere à literatura o caráter vital, ainda que assombrado, de máquina propagadora da realidade”. E sintetizand
o com sensibilidade e domínio de crítico de obra ficcional, completa: ”A narrativa de Chico se faz mais daquilo que escorre entre as palavras do que com as verdades que elas costuram.”
Disso o leitor se dá plenamente conta ao percorrer as 227 páginas e chegar ao capítulo final e à nota posterior, onde Chico Buarque esclarece: “Em maio de 2013 estive em Berlim com minha filha Sílvia Buarque, cuja contribuição foi fundamental para as entrevistas com a filha de Sergio, Kerstin Prüguel, a neta, Josepha Prüghel, a ex-mulher, Monika Knebel, e os amigos Werner Reinhart e Manfred Schimitz.”
O Irmão Alemão é desses livros que pedem ao leitor um tempo para a maturação e alguns retornos a trechos que mais impactaram ,seja pelo suspense despertado, seja por outras emoções provocadas. Suas muitas virtudes escapam a registros rápidos; e algumas deficiências, como o já mencionado por alguns “esquematismo dos personagens”, poderão ser reavaliadas, em leituras posteriores, como parte de uma coerência interna inapreensível à primeira vista. Não me lembro quem disse, por isso vai entre aspas: “A releitura reformata o romance e este reformata sua crítica.” Eu acrescentaria: mas só quando a obra é substantiva e expressa valores perenes, universais.
O escritor
Chico Buarque. Aos 70 anos comemorados em junho passado, Chico Buarque chegou ao seu quinto romance. Antes de O Irmão Alemão , lançado em novembro de 2014 e comentado nesta página, escreveu , pela ordem cronológica: Fazenda Modelo, em 1974 e na Itália, onde havia se exilado, sátira à ditadura instalada no Brasil; Estorvo, 1991, de enredo subjetivo, sugerindo sonho ou pesadelo; Benjamim, 1995, retrospectiva a partir dos dias finais do protagonista; Budapeste, 2003, prosa guiada pela crítica da sociedade do espetáculo; Leite Derramado, 2005, onde o retrato da sociedade se amplia e o protagonista não é oriundo da classe média, como os anteriores, mas vem da aristocracia decadente.
Em comentário interessante, Lea Aguiar, professora e crítica, diz que “se é notório que na obra musical e teatral de Chico Buarque a voz feminina seja o destaque, onde o compositor dá voz a prostitutas, mães, ricas, pobres, amadas, amantes (...), na literatura não são elas que comandam. A voz primordial é a masculina. São os protagonistas homens que ditam os tons dos romances.”
Eric Nepomuceno, crítico de literatura, e amigo do artista, traça do escritor um perfil conciso mas expressivo, no seu blog na Internet. Entre outras coisas diz que Chico, quando está escrevendo um romance, isola-se num apartamento de mobiliário frugal, anexo àquele onde habita. Desce uma escada, tranca-se na sala onde só existe mesa, computador e cadeira, e ali permanece do começo da noite até as horas que avançam pela madrugada. Obcecado pela palavra perfeita, escreve, reescreve, rasga, recomeça, num processo exaustivo, do qual só uma disciplina exigente, radical, prussiana pode dar conta.
Leitor voraz desde a infância, devorou durante a adolescência todos os franceses, russos, italianos e norte-americanos importantes. Fã de Scott Fitzgerald, que prefere a Ernest Hemingway, elege O Grande Gatsby um dos melhores romances já escritos. Abre-se à leitura dos novos escritores, especialmente os brasileiros. Mas quando está escrevendo, quase não lê. (SM)
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