Um ato de coragem


| Tempo de leitura: 3 min
Num País onde a falta de coragem, o fisiologismo e o corporativismo são praticamente regra entre os entes públicos e políticos, não pode passar em branco a atitude da senadora Marta Suplicy, que deve ir para o PSB, após deixar o Partido dos Trabalhadores, que ajudou a fundar e integrava há 33 anos. Ela enviou para as direções municipal e estadual da legenda uma carta em que justifica sua saída. Uma atitude que se espera de alguém que já não concorda com os rumos da sigla, fundada como uma alternativa honesta e diferente de tudo o que o País vira até então. Nos últimos anos, depois do escândalo do Mensalão e agora o do Petrolão (esquema de pagamento de propinas que vigorava na Petrobras, descoberto na Operação Lava Jato), o PT foi jogado na vala comum da política brasileira, sepultando a ética que pregava.
 
A senadora vinha de um processo de desgaste com o partido desde a campanha eleitoral de 2014, quando foi preterida na disputa pelo governo paulista. Neste ano, deu várias entrevistas e declarações criticando duramente o PT. Na tarde de ontem, Marta Suplicy divulgou um vídeo explicando sua desfiliação, no qual destacou que o partido rompeu o caminho da ética e da justiça social. “O PT se contaminou com o poder. Mas eu nunca me desviei dos meus valores, os valores que meus pais me ensinaram e pelos quais eu criei os meus três filhos”, disse, em alusão à avalanche de escândalos que engole os colegas de sigla.
 
Caso Marta continuasse no PT, estaria contrariando frontalmente o próprio discurso. Desde a primeira eleição de Dilma Rousseff, quando ela se afastou do palanque (mesmo ganhando depois uma vaga no ministério), passando pelo pleito que elegeu Fernando Haddad prefeito de São Paulo e o que provocou uma derrota fragorosa de Alexandre Padilha ao governo paulista, a senadora vinha deixando clara a sua insatisfação com os rumos do partido e das decisões de Lula, que resolveu tirar um poste após outro da manga do paletó. Conseguiu com Dilma e Haddad, mas falhou feio com Padilha, uma vez que Marta Suplicy teria maiores chances como adversária do vitorioso Geraldo Alckmin.
 
A senadora petista demonstrou uma coragem fora do comum ao deixar o partido com o qual é identificada, seguindo o caminho de Luiza Erundina e Marina Silva, as quais abandonaram o barco petista ainda na época do Mensalão. Poderia se manter na legenda, como vários outros petistas históricos, demonstrando sua concordância com toda a sujeira que o brasileiro acompanha, enojado. Sem amarras e dando provas de que a sua história política não pode se dissipar dentro de uma legenda fortemente associada à corrupção, Marta Suplicy surge agora como uma terceira via nas eleições do ano que vem. Mesmo sem ter anunciado a intenção de ir para o PSB, a senadora já está sendo anunciada como candidata à Prefeitura de São Paulo pela sigla, com reais condições de vitória. Pode-se não concordar com muitas de suas ideias, mas não se pode chamar Marta de incoerente. E agora ela demonstra uma coragem que falta a muito político brasileiro.
 
email opiniao@comerciodafranca.com.br
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários