Quase história


| Tempo de leitura: 2 min
Verbete no dicionário desta personagem Clara: “Elogio: há que se desconfiar - nem sempre, mas o bastante- do que pode haver dentro ou por trás de um elogio. Pode ser vilipêndio sorridente ou um sutil ‘cale-se’ a ser bebido azedo. Pode ser entredentes, então, calafrio. Um elogio, o confete que desmonte uma estrutura toda armada ou que a ceife logo de entrada na mensagem: ‘não vá além’. Em suma: pode intentar o extremo oposto do que aparenta. Vai depender de quem: em ambos os lados. 

Mas há também risco de verdade e beleza numa oferenda assim, louvor, consagração”. 
 
 
 
Na transitoriedade de um dia, o que em todo mundo jaz latente, nela, Clara, encontrou vazão. Tudo começa bem antes, século passado, ou mais remotamente ainda, em descendência, não a genética, mas a dos laços que ela contornava buscando tradição mais nobre. “Venho de mouros, de ciganos dos Bálcãs, sou também sangue miscigenado do siciliano, do andaluz, dizia a minha avó, entre as sinhaninhas e as rocas de mulheres cuja domesticidade, todavia, seguiria nelas impregnada gerações afora”, contava Clara, como se diz de vantagens em ressalvas. 
 
Esta que cresceria num limite meio frouxo, quase perdida, um derivativo qualquer entre a filha da natureza, a selvagem, a desmesurada das festas pagãs e a sóror de outros claustros, o hábito empedernido. Imprecisa, ela.
 
Então, sob o signo da imprecisão entranhada em si como continente onde pisava em busca de equilíbrio, assim mesmo, duvidosa, dúbia, equívoca desenvolveria qualquer afeto. É que na sua constituição, no seu entendimento, sozinha se fizera à sombra de seu legado imaginário, uma vaziez incontornável, portanto, estava clara e duramente instalada sem volta em si no ponto em que conhecera Helena, colega de trabalho. (porque, sim, há na cronologia momentos de ruptura sem retorno).
 
Então, aí, sem saber, Helena nem qualquer outra pessoa aplacaria o que Clara passara a buscar; ninguém remediaria o congênito de haver assim à deriva e oca à procura de preenchimento. Raivosa, sem a amiga o pressentir, ela ficou. E com o ressentimento calado do que, no entanto não concebe forma clara de expressão, a treva parecia vencer, ao menos no ímpeto desse dia, o luminar sempre vazante dentro dela.
 
Passou daí a elogiar Helena, derramada, exagerada, não se saberá, no desenlace, se mentirosa ou não. 
 
 
Vanessa Maranha, Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida, Cadernos Vermelhos, 807 dias, contagem regressiva e Quando não somos mais

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários