Conquistas sob risco


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Apontada como o grande exemplo das conquistas sociais do País na última década, a “nova classe média” — formada por brasileiros que deixaram a faixa de pobreza, ascenderam à classe C e passaram a responder por grande fatia do consumo por causa da política de desonerações do governo federal — vê com preocupação a deterioração nos índices econômicos e na retração que o País vive como um risco para manter o estilo de vida. Para esta faixa, a cautela nas compras bate nos produtos do dia a dia, depois de afetar as vendas de imóveis, carros e eletrônicos. As vendas de pão, macarrão, peixe enlatado e açúcar estão em queda. Até o iogurte, símbolo da prosperidade da classe C, não escapou do recuo na hora das compras.
 
Além disso, dois indicadores divulgados na semana passada sinalizaram uma tendência nefasta para os 35 milhões de brasileiros que saíram da pobreza. De um lado, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação oficial do País, passou de 8% no acumulado em 12 meses. A taxa de desemprego da Pnad Contínua, que detalha o mercado de trabalho em 3,5 mil municípios, subiu para 7,4% no trimestre encerrado em fevereiro. Há um milhão a mais de desempregados. Como se pode ver, os números atestam a deterioração simultânea do emprego formal e do poder de compra, que atinge em grande parte as classes menos favorecidas.
 
A retração verificada no varejo tem sido evidente nos últimos meses. Desde dezembro do ano passado, quando o aumento na comercialização sempre foi evidente, o setor tem registrado quedas sucessivas em relação a períodos semelhantes nos anos anteriores. Nem quando há crescimento os índices animam o setor. Por causa das perspectivas para este ano, principalmente quando o governo ainda não conseguiu fazer aprovar as medidas de ajuste fiscal no Congresso Nacional, há certa apreensão que cerca o grande contingente que conseguiu engrossar o consumo em todo o País. A baixa expectativa para o curto e o médio prazos compromete qualquer intenção deste grupo em manter o consumo em alta. A hora é de cautela e, por isso, o varejo tem sentido.
 
Especialistas consideram que o consumidor colocou o pé no freio, pois teme perder o emprego e tem dívidas para pagar. Além disso, afirmam que a ascensão da “nova classe média” deverá ser freada, pelo menos nos próximos meses. O reajuste das tarifas públicas (de energia elétrica e água) e no preço dos combustíveis foi capaz de pressionar os preços — não apenas dos alimentos, mas de produtos eletrônicos, eletrodomésticos, móveis e serviços —, forçam uma cautela dos consumidores e também do setor produtivo. Diante dos estoques crescentes, empresas começam a frear a produção e demitir trabalhadores (o que foi sentido nos dois primeiros meses deste ano), reforçando esta situação de cautela. Se a situação vai melhorar, somente os próximos meses serão capazes de mostrar. Do contrário, nem os programas sociais serão capazes de manter o status da ‘nova classe média’ e o seu poder consumo.
 
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