“Eu chamo a todos eles de anjos da rua, porque eles ajudam a gente que não tem casa. Não é importante pela comida, arroz e feijão, isso não é nada. O que manda aqui é o carinho, amor e esperança que eles trazem”, afirma Vanderlei Marçal, 50, que costuma se abrigar debaixo da Concha Acústica, na praça do Centro. Ele comenta a iniciativa do grupo Jesus Luz do Mundo, da igreja Assembleia de Deus Ministério Madureira, do Parque das Esmeraldas.
O grupo é composto por 30 pessoas que realizam um trabalho de distribuição de marmitas e evangelização com os moradores de rua de Franca. A ação é feita há três meses e meio e cerca de 550 marmitas já foram entregues. Toda sexta-feira eles saem pela cidade para distribuir os alimentos preparados por eles mesmos. Também convidam os moradores a mudarem de vida e frequentarem os cultos religiosos.
O Comércio acompanhou o grupo na noite do dia 27 de março. Com as marmitas nas mãos, um violão e uma Bíblia, eles começaram a jornada por volta das 22 horas daquela sexta-feira chuvosa.
No violão, Moisés da Silva, 35, cantou músicas que falam de fé e esperança. “Você é um ser, você é alguém tão importante para Deus”, dizia a letra de uma das canções.
O encontro com Vanderlei, também conhecido como Madruga, é marcado por alegria e familiaridade. Ele conhece os religiosos e já sabe até a letra das canções. Porém seu jeito brincalhão oculta uma história de sofrimento. “Eles cantam e trazem uma palavra de Deus para confortar. Depois cada um vai para sua casa e eu fico aqui sozinho. Então falo com Deus para não deixar a depressão chegar em mim”, disse Madruga.
O projeto foi criado dentro da igreja do Esmeralda com a contribuição da população do bairro. A iniciativa contou com o apoio do pastor presidente José de Paula. “A ideia surgiu quando nosso pastor presidente nos orientou que precisávamos cumprir nossa missão saindo das quatro paredes da igreja. Dessa forma levamos o alimento físico e o alimento espiritual, que é a palavra de Deus”, disse o pastor Fernando Barauna, 33.
Resultados
Com esse trabalho, o grupo já conseguiu tirar pessoas da rua. Dois foram levados para uma casa de recuperação particular. O pagamento pela internação é feito por meio de arrecadações dentro da igreja. “Para nós significa que estamos cumprindo nossa missão e tem sido gratificante. Quando uma alma se salva, já ficamos muito satisfeitos”, afirmou o pastor.
Os moradores de rua também são convidados para participar dos cultos. O grupo faz o convite e combina de buscá-los para levá-los à igreja. Nesse dia é oferecido um banho e roupas limpas também. “Já vivenciamos histórias de transformação. Há pouco tempo, um moço que dormia na praça em frente à Santa Casa saiu da rua. Ele conseguiu um serviço e está morando em um hotel no Jardim Guanabara”, disse o pastor.
Segundo ele, muitas pessoas que estão em situação de rua têm casa para morar, mas não querem voltar para casa. A maioria aceita o trabalho realizado pelo grupo. O pastor pontua que as pessoas abordadas costumam ser receptivas ao convite parar rezar, embora aconteça de alguns ficarem constrangidos.
A ação começa no Centro e segue para o bairro Redentor e Santa Terezinha. “Nos primeiros dias ficamos inseguros em pregar a palavra de Deus nessas regiões tidas como violentas, mas percebemos que eles querem uma vida nova”.
Doação ao próximo
Os alimentos são levados pelos membros da igreja ou comprados quando não é possível obter por meio de doação. A marmita da noite do dia 27 de março trazia arroz, feijão, macarrão e carne de panela com batata. “Nós fazemos com amor e carinho. Durante a semana eles não podem fazer uma refeição assim, cozinhamos como se fosse para gente mesmo comer”, disse Dalvana do Santos, 29, que participa da etapa de preparação dos alimentos. Em algumas visitas, eles também distribuem roupas e cobertores.
No meio do grupo, um argentino que se mudou para o Brasil aposta em ações assim para mudar a realidade do país que escolheu para viver. “Participo desde o começo da iniciativa, eu fazia um trabalho parecido quando morava em Curitiba, no ano passado. Só muda o idioma, essa diferença social existia também na Argentina”, disse Dario César Cerpa, 35.
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