Não é a primeira vez que isso acontece. Antes das eleições do ano passado, Dilma Rousseff (PT), em busca da reeleição que acabou conseguindo, negou tudo o que o brasileiro já estava cansado de saber: as contas públicas estavam descontroladas, a inflação vinha crescendo de forma perigosa e a atividade econômica deixava o Brasil à beira da recessão. Deu no que deu: em seu segundo mandato, na tentativa de reverter a crise que a cada dia mais aumenta no País, precisou chancelar medidas impopulares, as quais, dizia na campanha, os adversários iriam implantar. Porém, agora, sofre com uma oposição acirrada no Congresso Nacional para aprovar o ajuste apresentado pelo ministro Joaquim Levy (Fazenda), inclusive de parlamentares da própria base aliada, pois quer mexer em benefícios trabalhistas já consolidados.
Vários outros exemplos mostram a clara capacidade que políticos, com mandato ou não, apresentam para distorcer evidências, fatos e números. Desta vez, o foco vai para o ministro Carlos Gabas (Previdência Social), segundo o qual o sistema previdenciário brasileiro é um dos melhores do mundo e não necessita de mudanças. Quem acompanha o noticiário econômico nos jornais e na TV sabe que Gabas simplesmente negou os fatos, ao afirmar que a conta da Previdência não é deficitária, mesmo que em fevereiro o déficit tenha sido de quase 6 bilhões de reais. “Se mentir ou distorcer números deu um segundo mandato a Dilma Rousseff, por que não funcionaria com um ministro de Estado?”, deve ter imaginado o ministro.
Além disso, ele ainda tenta distorcer os números do governo central afirmando que a Previdência Urbana, que se refere apenas aos valores pagos e desembolsados em áreas urbanas, ficou positiva em 33 bilhões de reais no ano passado. Contudo, a conta total mostrou saldo de 56 bilhões no vermelho. Segundo o ministro, o número “é sustentável”, evidente tentativa de tapar o sol com a peneira. Ou seja, negar o inegável. Não é apenas com opiniões semelhantes que o País conseguirá reverter os rombos sucessivos na receita da Previdência, que, em última instância, penalizam quem trabalha por décadas a fio e, na hora de se aposentar, não consegue manter o nível de vida conquistado quando na ativa.
É necessário que seja feito um amplo estudo no sentido de criar, também na Previdência, uma justiça social da qual o governo federal petista se vangloria de ser o fiador. Reduzir o rombo é necessário, da mesma forma que o País precisa repensar o modelo, que nas últimas décadas apresenta um desgaste muito grande e já não permite ao trabalhador desfrutar de sua aposentadoria. Em muitos casos, torna-se um tormento para quem trabalhou tanto e merece descansar a certa altura da vida. Hoje, a Previdência brasileira desestimula a entrada mais cedo no mercado de trabalho, por causa do nefasto fator previdenciário. Este se tornou importante na época em que foi criado, para estancar a sangria dos cofres do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social). Quase duas décadas depois, nada foi feito para se encontrar uma solução. E esta é necessária e urgente.
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