Recentemente tomei conhecimento de uma polêmica envolvendo mercado-ética-psicologia infantil acerca de uma nova boneca a ser lançada universalmente. Apresentavam um brinquedo que “conversava” com as crianças e as incentivava a falar sobre seus desejos e pensamentos. O motivo da inquietação e indignação de muitos, no entanto, não era a inovadora tecnologia. É que a boneca era incrementada pela possibilidade de gravar todas as conversas (escutas?) obtidas e essas gravações poderiam ser ouvidas tanto pelos pais quanto pelos fabricantes. A justificativa dos idealizadores do “mimo” era que, com informações melhores, a indústria poderia aperfeiçoar-se no agrado às crianças. E os pais, a quem a indústria também visaria, usariam esse acesso privilegiado e descontextualizado aos pensamentos íntimos de suas crianças?
Não pude deixar de lembrar dessa notícia ao pensar sobre o filme Ela. Aplicativos que parecem conversar conosco, e quase adivinhar nossos pensamentos, estão mais próximos do que imaginamos. E este filme configura, magistralmente, uma intrigante e verossímil possibilidade.
Imaginemos uma relação amorosa sem frustrações, sem esperas, sem desencontros. Muitas pessoas desejam algo assim. A capacidade inventiva do ser humano é constantemente colocada a serviço de transformar desejos em produtos. Produtos podem ser vendidos, capitalizados.
E aí existe alguém que inventa um produto que atende a um desejo humano: um amor resistente à quebra de continuidade que, inevitavelmente, atinge os amores e relações comuns.
É este o mote que mobiliza o filme do mês de abril a ser comentado no evento Cinema e Psicanálise. Ouvi a respeito dele opiniões variadas e tal amplitude de reações trouxe-me a constatação da riqueza desta obra inquietante, Her, do diretor Spike Jonze.
Ela, como foi renominada no Brasil, sugere algo possível: e se formos substituídos por máquinas? Na cadeia de uma pergunta puxar a outra: se sim, estaremos livres da dor? Theodore, o protagonista composto com trejeitos de nerd solitário, histriônico e contido apaixona-se por um sistema inteligente de seu computador, com todo o envolvimento comum de uma paixão: entrega, sonho, ansiedade, ilusão de completude, necessidade e desejo.
Seu objeto de paixão corresponde inicialmente a tudo o que pensa.
Colocar-se diante do outro acreditando ser compreendido, ser amado, esperado, aceito. Mostrando-se com fragilidades e potências.
Atravessamos uma dúvida básica: é o sentimento oriundo das respostas e comportamento alheios ou é moldado a partir do que imaginemos ser o nosso ente amado? A questão é eterna em qualquer seara amorosa com pessoas e objetos, com sonhos e ideais, com realidades ou fantasias.
A nós, espectadores, chega um desconforto: é sério? Dará tudo certo? Final feliz?
Sem respostas fáceis, partilhamos o namoro de Theodore com seu sistema operacional, indo desde a estranheza do início, passando pela galopante paixão e chegando à dependência. Caminhos percorridos em nossos namoros reais que tanto se assemelham aos virtuais.
A discussão proposta pelo filme sobre o quanto abrimos de nossa capacidade afetiva quando smartphones já são quase uma extensão de nossas mentes e braços é atual e pertinente.
O encontro ocorrerá neste sábado, às 15 horas, na sede campestre do Centro Médico de Franca, sendo aberto ao público francano, em geral.
Receberemos como comentarista a psicóloga e psicanalista Patrícia R. de Andrade Tittoto, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto.
Será mais uma oportunidade para uma boa conversa, em gostoso café e troca bastante humana e presencial. Até lá.
ONDE ASSISTIR
Her
Diretor: Spike Jonze
Quando: Amanhã, às 15 horas
Onde: Centro Médico, sede campestre
Quem promove: Grupo de Psicanalistas de Franca
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