Parece que deu bode


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Todo mundo sabe que, debaixo do olhão do sol, acontece coisa que ninguém imagina.
 
Eu, que nunca duvidei disso, aumentei minhas certezas ao escutar a história do Zegago. Quem me contou tudo, asseverando veracidades, foi um mineirinho vindo lá das bandas do norte, lá de perto da terra dos baianos. A fim de avalizar o dito, disse que é compadre do tal Zegago, que aceitou ser padrinho de batismo de uma menina sua.
 
O mineirinho me disse que seu compadre disse que aprendeu que possuía um dom que de nada lhe servia. Era assim: ele tinha mania de sonhar com bicho, mas se ele próprio fizesse uma fezinha no jogo, nunca dava na cabeça o animal com que sonhara. Todavia, se alguém lhe pedisse um palpite, e ele houvesse sonhado com algum bicho, era só falar e o dito cujo lambia os beiços, quando chegava o resultado dos sorteios.
 
Isso aconteceu muitas vezes. E, toda vez, o ganhador nem se lembrava do palpite do Zegago, sequer lhe dirigia um muito obrigado.
 
Um dia, um vizinho parou o baio diante da varanda do homem das premonições. Apressado, bateu palmas, deu bom-dia lá de cima do arreio. Foi logo perguntando:
 
- Estou indo a caminho do arraial e pensei se, por acaso, o senhor Zegago não podia me dar um palpitinho prum joguinho no bicho?
 
O dono da casa foi solícito.
 
- Ca...ca...ca..ca... cap..
 
- Já entendi, já entendi, brigado. Desculpa, mas é que estou com muita pressa... Até mais ver...
 
O visitante desceu a taca na anca da montaria, usou a espora, e logo se ouviu o bater da porteira no mourão. Daí a pouco só restou um fiapo de poeira no ar, mas ele também se dissipou depressa.
 
O visitante retornou no dia seguinte, já sem pressa, mas com cara e voz de poucos amigos. Queria falar com o dono da casa.
 
- Hoje ele não tá não, foi ver uma irmã, lá no Arraial das Pitangas. Demora uns três dias pra ele voltar. Se o senhor quiser deixar algum recado, eu falo pra ele.
 
O homem não tinha recado, tinha era muita raiva. E descarregou raiva e palavras duras na mulher:
 
- Seu marido é um traste, um enganador. Ele falou que o bicho que ia dar começava com “Ca”. Eu joguei. Trinta reais.  No cavalo, no camelo e na cabra. Dez reais em cada um... E perdi tudo.
 
A mulher já enfrentara situações análogas muitas vezes. Por isso, sem levantar as sobrancelhas e sem enrugar a testa, respondeu:
 
- Perdeu porque quem se avexa come cru. O senhor tava muito apressadinho, passou por aqui ventando. O senhor devia lembrar que o Zé é gago, que ele demora uma semana pra falar, uai. Eu tava aqui na sala, escutei tudo. Ele falou: capais de dar avestruz. É verdade que quando ele falou capais, o seu cavalo já tava lá perto da porteira... Não tinha como senhor escutar.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros

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