A gente está sempre voltando ao sentido velho das coisas quando não é mais suficiente: um novo sentido para velhas coisas. Marcamos datas na folhinha (talvez as pessoas nem usem folhinha mais) ou “de cabeça” contamos os dias para mais um esperado feriado. É fato: precisamos desses minis acontecimentos para que a vida não pareça ser apenas um dia precedido por uma noite e seguido por outra. Vamos à cata de coisas pequenas, uma puxando a outra.
Abro a gaveta do meu criado e encontro, meio quebrado, o ovo de galinha pintado (Pysanski, se estivéssemos na Rússia) que minha filha fez para o meu marido como primeiro presente de uma Páscoa tão longínqua que separam uma criança de uma quase mulher. Descubro um cartão de alguma Páscoa que tem ovinhos de galinhas pintadinhas - e naquela época nem eram moda ainda. Vejo ovos fervendo alto, soltos numa panela e reclamo que não é assim que se cozinha ovos, eles vão se chocar uns contra os outros e rachar. Minha irmã, chef de cozinha, diz: deixa, quem os colocou aí não tem a menor noção de cozinha, lembra quando éramos crianças e cozinhávamos ovos de qualquer jeito e eles não rachavam? Pois então, quando não se sabe nada, dá certo.
Descubro que quem sabe das coisas é que tem responsabilidade por elas - não existe questão de sorte. Então, vamos aos tempos que são precisos: um ovo mole apenas quente, aquele delicioso que se põe pimenta do reino e sal, precisa de 4 minutos; um ovo com gema mole precisa de 6 minutos. E um ovo cozido perfeito, sem as horríveis manchas roxas, precisa de 7 minutos. Mas tem o ovo “perfeito”, nascido das novas tecnologias, com gema e clara em idênticas consistências. É preciso termômetro para deixar a água do cozimento a exatos 63ºC - aliás, será preciso mesmo é de uma chama que permita tamanho controle.
Daí me lembrei que houve um tempo em que ovo fazia mal, era comer e tombar de colesterol na certa. Procuro o delicioso texto do Veríssimo, uma própria declaração de amor ao ovo. E como ele é poético e cheio de razão! O ovo dele é o frito, quem sabe na manteiga, vestindo aquela saia clara redonda e rodada com franjas altas douradas, como de uma baiana.
E tem, naturalmente, ovos de chocolate. A sedução dos ovos de chocolate não envelhece, comemos ovos todo ano - e cortar a fita, esticar a folha que os envolve, que é sempre maior do que supúnhamos, admirá-los de pé em cima do suporte, nos faz crer em legítimos Fabergés comestíveis. Para comê-los, é preciso passar antes pela tristeza de se perder a perfeição.
Uma feliz Páscoa para nós e que possamos todos, ainda que velhos e cansados, comer chocolates com a mesma verdade de nossas infâncias.
DICA DA SEMANA
A gente está sempre voltando ao sentido velho das coisas quando não é mais suficiente: um novo sentido para velhas coisas. Marcamos datas na folhinha (talvez as pessoas nem usem folhinha mais) ou “de cabeça” contamos os dias para mais um esperado feriado. É fato: precisamos desses minis acontecimentos para que a vida não pareça ser apenas um dia precedido por uma noite e seguido por outra. Vamos à cata de coisas pequenas, uma puxando a outra.
Abro a gaveta do meu criado e encontro, meio quebrado, o ovo de galinha pintado (Pysanski, se estivéssemos na Rússia) que minha filha fez para o meu marido como primeiro presente de uma Páscoa tão longínqua que separam uma criança de uma quase mulher. Descubro um cartão de alguma Páscoa que tem ovinhos de galinhas pintadinhas - e naquela época nem eram moda ainda. Vejo ovos fervendo alto, soltos numa panela e reclamo que não é assim que se cozinha ovos, eles vão se chocar uns contra os outros e rachar. Minha irmã, chef de cozinha, diz: deixa, quem os colocou aí não tem a menor noção de cozinha, lembra quando éramos crianças e cozinhávamos ovos de qualquer jeito e eles não rachavam? Pois então, quando não se sabe nada, dá certo.
Descubro que quem sabe das coisas é que tem responsabilidade por elas - não existe questão de sorte. Então, vamos aos tempos que são precisos: um ovo mole apenas quente, aquele delicioso que se põe pimenta do reino e sal, precisa de 4 minutos; um ovo com gema mole precisa de 6 minutos. E um ovo cozido perfeito, sem as horríveis manchas roxas, precisa de 7 minutos. Mas tem o ovo “perfeito”, nascido das novas tecnologias, com gema e clara em idênticas consistências. É preciso termômetro para deixar a água do cozimento a exatos 63ºC - aliás, será preciso mesmo é de uma chama que permita tamanho controle.
Daí me lembrei que houve um tempo em que ovo fazia mal, era comer e tombar de colesterol na certa. Procuro o delicioso texto do Veríssimo, uma própria declaração de amor ao ovo. E como ele é poético e cheio de razão! O ovo dele é o frito, quem sabe na manteiga, vestindo aquela saia clara redonda e rodada com franjas altas douradas, como de uma baiana.
E tem, naturalmente, ovos de chocolate. A sedução dos ovos de chocolate não envelhece, comemos ovos todo ano - e cortar a fita, esticar a folha que os envolve, que é sempre maior do que supúnhamos, admirá-los de pé em cima do suporte, nos faz crer em legítimos Fabergés comestíveis. Para comê-los, é preciso passar antes pela tristeza de se perder a perfeição.
Uma feliz Páscoa para nós e que possamos todos, ainda que velhos e cansados, comer chocolates com a mesma verdade de nossas infâncias.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.