As páginas do Comércio da Franca, para muito além da efemeridade da notícia, transformaram-se em ferramenta insubstituível no auxilio à educação e no ensino de questões atuais como meio ambiente, crise hídrica, lixo reciclável e sustentabilidade em uma classe do Sesi.
Por trás da iniciativa está uma inquieta e falante professora de Ciência, com 47 anos de idade e 23 de profissão. A experiência é vasta e poucos minutos sentado com Eliana Pires Tasso e seu braço direito na classe, a analista de suporte em informática, Andrea Cristina Guagneli, servem para mostrar que estamos diante de um desses profissionais da educação que amam o ofício de ensinar.
Em determinado ponto da nossa conversa, Eliana solta que não queria ser para seus alunos como seus próprios professores foram para ela. As aulas, recordou, eram mecânicas, com tudo já pronto, sem que os estudantes de sua época pudessem questionar qualquer coisa, dar opinião.
E foi assim, colocando seus alunos das sétimas séries para pensar e para participar efetivamente da aula, que ela deu início, em 2012, a um projeto inovador em classe, que usou um caderno sobre sustentabilidade, publicado pelo Comércio da Franca em 12 de maio daquele ano, como base para pesquisas de campo realizadas pelos estudantes.
As nove reportagens que compunham o caderno especial renderam aos estudantes uma percepção de meio ambiente que eles não tinham até então. “Como meu foco sempre foi sustentabilidade, eu quis que eles fossem até o local onde as reportagens foram feitas para ver como era, até mesmo para apurar a informação que tinham lido”, disse Eliana. “Queria atestar a veracidade do jornal. Para minha surpresa todo mundo abriu as portas e os alunos vivenciaram na prática o que o Comércio mostrou”.
Antes desta fase, tinham realizado uma enquete - a professora adora uma enquete! - com moradores, vizinhos e familiares para terem uma ideia se as pessoas conheciam o assunto. Como era previsto, uma pequena parte soube responder sobre questões de meio ambiente e outra pequena parte tinha lido o caderno do jornal. A constatação mais direta foi o baixo índice de leitura dos entrevistados.
A partir da experiência, o projeto da professora Eliana foi tomando proporções que ela não imaginava. O que era para ficar restrito à sala de aula foi muito além, com alunos se tornando multiplicadores do conhecimento que adquiriam.
Com isso, o projeto foi selecionado para participar, em São Paulo, do ICLOC, congresso de educação que reúne milhares de professores de todo o Brasil no compartilhamento de soluções inovadoras para o ensino. Lá, Eliana descobriu que outras escolas também usavam jornais e reportagens publicadas como fontes para suas pesquisas e trabalhos.
Mais projetos
Pouco depois, outro projeto começou a ser posto em prática. Novamente todo baseado na ideia de sustentabilidade e preservação do meio ambiente, desta vez o resultado não foi o esperado, apesar da boa intenção.
Uma campanha feita pelos alunos na escola, em casa e na vizinhança das crianças, conseguiu arrecadar seis mil pilhas e baterias de diversos tipos.
Depois de não ter mais onde guardar tanta bateria na sala reservada no Sesi, com a direção querendo expulsar a professora - isso foi força de expressão - e sem poder continuar arrecadando, Eliana foi tentar descartar todo o material, quando descobriu que não há um local, ONG ou instituição que recolha lixo eletrônico em Franca. “A Polícia Ambiental não sabia para aonde mandar. O Supermercado Savegnago recolhe, mas não seis mil pilhas e baterias”, disse ela.
No fim, a professora vendeu todo o material por R$ 11 a um ferro-velho, mas desconfia que está tudo no mesmo lugar até hoje. “Em vez de contribuir, eu poluí ainda mais. Sem contar a decepção de contar isso para os meninos”, revelou.
No ano passado, novo projeto levou Eliana e seus alunos até o aterro sanitário de Franca. Lá, puderam ver que muito do lixo teoricamente reciclável vai para o lixo comum, quase sempre por problemas na hora de separar um do outro.
No aterro, puderam perceber que a terra do calçado não sabe o que fazer com as centenas de pares de calçados que são descartados todos os dias pela população. Por diversos motivos, mas principalmente pelos processos químicos empregados no preparo do couro, sapatos não são reciclados, reaproveitados, triturados, nada. Poderiam ir para o aterro industrial existente em Franca, mas ficam no aterro comum, misturados a cascas de banana e restos de comida. “Mesmo com toda a tecnologia existente, não existe a opção de reaproveitar o sapato”, disse Eliana.
Inovadora
Nesse momento, a professora inquieta fala com empolgação daquilo que pretende tornar seu projeto para 2015: o monumento do sapato velho.
A ideia é tão simples quanto grandiosa. Em sua cabeça está o desenho de enorme sapato feito em uma fibra qualquer, que serviria para que as pessoas depositassem os calçados que não usam mais.
Uma cooperativa trataria de recuperar esses calçados e colocá-los novamente em condição de uso para serem doados. “Poderíamos doar às pessoas mais carentes, para vítimas de enchentes, desabrigados. Até para as populações da África”, sonham Eliana e Andrea, enquanto pensam em uma empresa ou instituição que pudesse bancar a construção do sapato, que, para elas, poderia se transformar até em uma atração turística.
Para a professora de Ciências, o que vem agregado a cada nova ideia, cada novo projeto é a possibilidade de que as experiências transformem os alunos, ultrapassem os muros da escola e alcancem a sociedade.
Como resultado dessas iniciativas, o Sesi acaba de se juntar ao projeto Jornal Escola do Comércio da Franca, programa idealizado como suporte ao aprendizado para educadores de Franca e região.
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