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Acordei porque o sol que batia nessa veneziana fez minhas pernas queimarem debaixo do edredom. Tudo muito quente e esse mesmo calor que só nos faz reclamar. Acordei porque sonhava que nós batíamos os dentes de frio, eu e você. Como tem sido sempre. 
 
Difícil descrever aquela paisagem que durante alguns momentos parecia assustadoramente palpável, e assustava por que talvez eu soubesse que estava sonhando. Aquelas árvores delgadas e a paisagem toda branca. Enfiávamos o pé no solo cândido e afundávamos na neve até a altura dos joelhos, perdíamos as forças e caíamos. Eu e você, como tem sido sempre. Estávamos sós. 
 
E aí, depois de cairmos tanto (isso já me cansava os ossos e os nervos), você começou a falar em uma língua que a mim era completamente inerente. Mas não me pergunte qual língua era. Talvez o polonês por você ter me dito tantas vezes: Ucz się ucz, bo nauka to do potęgi klucz. E tantas vezes eu repetia e a pronúncia parecia piorar a cada momento. Mas no sonho, eu te respondia com longas frases, enquanto observava as árvores nuas de folhagem e a fumaça que saia da boca, o cigarro que parecia aquecer a alma. Eram uns cinco quilos só de roupa que usávamos: ainda assim um frio de ranger os ossos. Aquela paisagem foi ficando atordoante, como se eu não fosse capaz de acreditar que estávamos ali: no meio do inferno álgido polaco, ou russo, ou sueco, ou de lugar nenhum. Erámos só nós dois, como tem sido sempre. 
 
Sentíamo-nos como se ali fosse o centro do universo e todos os astros e estrelas e os cosmos de Gombrowicz e pessoas e coisas e todo o funcionamento da vida, enfim, girassem em torno de nós. Atacava-nos essa sinestesia e éramos capazes de sentir textura nas emoções humanas, as nossas, e isso se confundia com o cheiro do branco da neve e a cor que exalava dos troncos cobertos de gelo. E nós a falarmos essa língua misteriosa derivada do polaco e que por vezes, eu juro, ouvi a língua dos países francófonos, mesmo que ainda eu esteja em processo de aprendizagem e muito pouco sei falar nesse idioma. Eu ouvia tudo e tudo era devidamente compreendido. Foi então que, com um incomodo na perna, (aquilo parecia ser devido aos tombos que levamos até então), acordei. 
 
Agora, porém, que desperto e com o corpo ligeiramente coberto de suor, sei que acordei não porque o sol batia na veneziana, acordei porque já estava farto desse sonho. Por ser só sonho. Acordei porque queria estar com você, e não me importa à língua, o tempo, o clima, a paisagem. Só importa se for só eu e você, como tem sido sempre.
 
 
Breno Carrijo, estudante de Letras

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