O Tribunal do Júri sempre despertou a atenção e o interesse da população. Para os espectadores, o Júri se apresenta como um grande espetáculo teatral capaz de eletrizar a plateia.
Pois bem, prezado leitor! Dentre as histórias que se contam sobre os Tribunais do Júri, há uma muito interessante e sutil. O Tribunal foi formado para julgar um réu acusado de assassinato. O crime, dadas as circunstâncias, havia chocado uma pequena cidade do interior. Depois da acusação do Promotor Público, começou a falar o advogado de defesa, recém-formado, sem muita experiência mas, reconhecidamente, homem culto e habilidoso.
O advogado iniciou assim a sua defesa:
- Excelentíssimo Sr. Dr. A de P e S., Meritíssimo Juiz da Comarca de..., pessoa a qual reverencio pela sua cultura, saber e dignidade...
E o advogado continuou:
-Excelentíssimo Sr. Dr. A de P. e S., Meritíssimo Juiz da Comarca de..., pessoa a qual reverencio pela cultura, saber e dignidade...”
E o advogado prosseguiu:
- Excelentíssimo Sr. Dr. A de P e S., Meritíssimo Juiz da Comarca de ..., pessoa a qual reverencio pela cultura, saber e dignidade...”
E por mais vezes o advogado repetiu esse seu preâmbulo e só parou quando o Juiz, muito irado, repreendeu-o severamente:
- O Sr. pensa estar onde? Numa feira livre, num parque de diversões, num picadeiro de circo? O Sr. está presente num Tribunal e, por isso mesmo, deve agir com seriedade e respeito. Portanto, Sr. Advogado, saia desse seu preâmbulo monótono e passe a defender o seu cliente.
A censura do Juiz deu a base para a defesa que o advogado pretendia fazer. E foi assim que ele a apresentou:
- Senhores jurados: o Excelentíssimo Sr. Juiz exaspera-se com a minha saudação inicial a ele dirigida com todo respeito e solenidade. Pois bem, senhores jurados! Eu estou aqui para defender um homem simples, ignorante e até meio abobalhado que desferiu uma facada certeira numa vítima que durante anos e anos chamava-o, em alto e bom som, de Burrico da Cidona. Se o ilustre e civilizado Juiz irritou-se com a monotonia de minha respeitosa saudação, imaginem os senhores a revolta de meu constituinte com o apelido detestado e mil vezes repetido.
Segundo afirmam, o “Burrico da Cidona” foi inocentado.
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
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