A neta pergunta a queima roupa, sem mais nem menos: “Quando sua mãe morreu você ficou muito triste?”. A avó levou um baita susto pois estavam em volta da mesinha de trabalho, ouvindo música, desenhando, rodeadas e manchadas de tintas coloridas. O cenário era de alegria, leveza, fim de tarde perfeito para inventação de moda de avó e netas: só faltava bolinho de chuva. Mas não chovia e a Nanda queria uma resposta. Fiquei, sim, respondeu. E continuou: “mas todo mundo um dia vai morrer e eu sei que vovó Cacá teve vida cheia, bonita, que foi feliz, amada. Tenho certeza que ela viveu e morreu bem.” “Ela era muito velhinha, não era?” Aí ela me pegou, a avó pensou. Nunca vira sua mãe muito velhinha. Mesmo quando foi para o hospital, com oitenta e três anos, e ainda acreditava que ela teria muito tempo pela frente, ainda veria outros bisnetos, ainda receberia amigas para o lanche e “costura” – como ela apelidava as tardes de jogatina inocente. Mas seria muita informação para uma menininha de cinco anos e ela finalizou com um seco “Era. Era muito velhinha.” Sem piedade, continuou: “Era assim, quase que nem você?”. “Quase”, respondeu. “Mas você não vai morrer agora não, vai?”. “Não”, prometeu para encerrar o papo. ‘’Que bom, porque você ainda não me mostrou as fotos de quando você era menininha.” E continuou: “Você tinha bichinho de estimação?”. “Tinha”, respondeu. “Era um dinossaurinho?”. Respondeu que não, mas Nanda duvidou na hora e durante muito tempo. Dia 27 de março Maria Fernanda fez 11 anos. Pena, aprendeu que os avós não são pré-históricos, são mortais e que precisam fundamentalmente do sopro divino dos netos para sobreviver.
(Lúcia H. M. Brigagão)
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