O bicho pegou na Câmara dos deputados quando o ex-ministro Cid Gomes confirmou em alto e bom som que ali existem “400 ou 300 achacadores”. Quem assistiu ao embate Cid x deputados ficou estarrecido. Mas só os bobinhos achavam que Cid baixaria a crista e humildemente pediria desculpas. Não é de sua natureza. Eu tive uma compreensão ampliada do embate. Ninguém diz o que Cid disse e permanece ali com um sorrisinho enquanto o mundo cai, só se comporta assim quem é maluco ou está desempenhando um papel. Sei que a tentação de considerar Cid maluco é grande, mas ele é antes de qualquer coisa um boquirroto e tenho convicção que serviu de instrumento para desestabilizar o legislativo. Puro jogo de poder.
Tive essa percepção ampliada por um livrinho que acabo de ler, chamado O Nobre Deputado de autoria do juiz de direito Márlon Reis que, através de um personagem fictício, o deputado Cândido Peçanha, descreve como o poder transforma dinheiro em mais poder, mais dinheiro, mais poder.
O livro descreve como age um achacador, o sujeito que usa sua posição de poder para exigir algo em troca, que pressiona, chantageia, rouba e engana, mas que é tratado como autoridade. Que flana impune sobre as leis, protegido pelo super poder que ganhou nas urnas: o de representar “o interesse do povo em diversos níveis: meu país, meu Estado, minha cidade, meus amigos, minha família, meus interesses próprios. Nessa ordem crescente.”
A semana na qual li o livro terminou num domingo marcante, o mesmo que deu início à semana na qual se deu o embate entre Cid e os deputados , o 15 de março de 2015, quando centenas de milhares de brasileiros foram às ruas para dizer “basta”. Basta de quê? Da certeza de que tanto Cid Gomes quanto os deputados que o atacaram expondo seus desmandos enquanto governador, estão certos. Da angústia de imaginar que os achacadores podem não ser 300 ou 400, mas 1.000, 5.000, 10.000, 100.000… Da certeza de saber que é tudo por dinheiro. Basta.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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