O Brasil tem acompanhado, nos últimos dias, a ação da bancada evangélica na Câmara dos Deputados, que se insurgiu contra a novela Babilônia, da Rede Globo, que estreou há duas semanas, por causa da forma como é retratado o relacionamento lésbico entre duas personagens, vividas pelas excepcionais atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg. Dentro do Congresso Nacional, onde há uma série de assuntos mais sérios para serem tratados, deputados evangélicos, Marco Feliciano (PSC-SP) à frente, propõem o boicote não apenas à novela, mas também à emissora e até a empresas que patrocinam a novela de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga. Esta manifestação de intolerância já foi escancarada há tempos, principalmente contra novelas que mostram uma visão simpática ao homossexualismo. Tal já aconteceu recentemente com a novela Em Família e, antes disso, em Amor À Vida. Nenhuma destas tentativas surtiu o efeito esperado.
O Brasil não pode ficar à mercê de iniciativas deste tipo, o que afronta a liberdade de expressão defendida por nossa Carta Magna. Dizer que uma novela ou outra manifestação artística são capazes de influenciar qualquer tomada de decisão, ou então que estão deturpando os valores da sociedade brasileira, é discurso vazio que não resiste à análise mais profunda, praticado por quem se acha dono da razão. A intolerância já foi motivação para que se cometessem verdadeiros massacres em nome de certos padrões de comportamento. Hoje, são os homossexuais. E amanhã, quem será? O holocausto judeu na Segunda Grande Guerra deveria servir de alerta para que a situação não se repita.
Quando homossexuais são retratados como alívio cômico ou motivo de chacota em filmes, novelas, peças de teatro ou outros meios artísticos, é permitido? Não podemos, hoje, deixar que nos façam de manada despreparada, seguindo lideranças sem questionamentos, em nome da defesa dos bons costumes. As manifestações dos evangélicos mostram que o Brasil ainda tem dificuldade de conviver com as diferenças e com opiniões diversas. A própria Bíblia, brandida pela bancada que defende o boicote à novela da Globo, traz episódios retratando homossexualismo, intolerância e até incesto. E não é por isso que influencia quem quer que seja para fazer tudo o que está escrito lá.
Quem pensa assim só pode ter sérios problemas com a sua fé. Em vez de tentar ameaçar, com atos de retaliação, posições contrárias a temas do cotidiano ou mudanças de costumes, essas lideranças precisam reafirmar suas posições junto aos seus seguidores. Tentar criar boicotes ou censurar o que não vai ao encontro de suas convicções não é o melhor caminho, pois pode exacerbar ânimos e levar a um confronto que não se sabe como pode terminar. A situação que se vê no Oriente Médio (com o Estado Islâmico) e na África (com o Boko Haram) na atualidade mostra que uma fé deturpada pode dar origem a diários assassinatos. Espera-se que isso não aconteça no Brasil, onde o sincretismo religioso tem sido exercido sem radicalismos em diversos pontos do País. Pelo menos até agora.
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