Ao conquistar o terceiro lugar em uma premiação realizada pelo Sebrae nacional, em Brasília, no último dia 5, a empresária Rita Fernandes Rosa Pacheco, de Franca, conseguiu indireta e involuntariamente desmistificar pelo menos uma realidade muito presente na cultura do mercado de trabalho brasileiro. Perto de completar 40 anos, Rita abandonou definitivamente uma carreira já cambaleante de fonoaudióloga para começar em outra profissão, completamente diferente. Em janeiro deste ano, sua clínica de podologia completou o quarto ano de existência, período que a levou à final da 11ª edição do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, após ficar em primeiro lugar no Estado de São Paulo. Lá, ela não apenas cuida de pés doentes como oferece mimos a seus clientes, que podem ser um café expresso, uma cadeira que deita totalmente, uma massagem ou apenas a televisão ligada em algum programa de preferência. Mudar a trajetória profissional com a idade em que Rita fez sua nova opção é um tabu no Brasil. Diferente de outros países, onde isso é aceito com maior naturalidade, por aqui é impensável perto da meia idade, quando, para muitos, profissão e vida familiar já deveriam ter alcançado sua estabilidade. Os dois prêmios recebidos também são importantes, pois avalizam um trabalho que é recente, dentro de uma profissão que vem crescendo. Casada e mãe de três filhos, Rita contou que enfrentou a descrença de amigos e familiares quando revelou que deixaria para trás o diploma de nível superior para tentar um curso técnico e uma nova profissão, totalmente distinta. “Meu casamento quase acabou nesse meio tempo. Tive que lidar com a desconfiança de todo mundo, mas hoje posso dizer que consegui a realização que o curso universitário não me ofereceu”, disse ela. Paralelo à sua atuação profissional, mas ainda assim em decorrência dela, Rita desenvolve um trabalho social em que atende idosos de um lar de Franca em sua clínica uma vez por semana. Nessa entrevista, ela fala da nova profissão, da importância e reconhecimento que os prêmios trouxeram e injeta um pouco de ânimo em quem, como ela, procura novos horizontes.
Vamos começar com a pergunta mais óbvia: como foi recomeçar a vida profissional perto dos 40 anos?
Hoje posso dizer que tenho apoio da família, mas na época foi muito difícil. Perguntavam como eu iria estudar todas as noites com filho pequeno em casa. Meu marido dizia que não daria certo. Era eu e mais ninguém. Para fazer a transição tive que me planejar muito, me programar muito, atenuar minha ansiedade, a espera. Mas foi uma grande mudança. Foi preciso sair da minha zona de conforto.
Você se vê como motivação para outras pessoas?
Queria mostrar isso para as pessoas se motivarem. Na vida é possível mudar. Se você não tem realização financeira ou pessoal ou ambas em seu trabalho, você tem que procurar mudar. É possível, desde que você trace um plano. O difícil é sair do papel.
Por que deixar a fonoaudiologia? O que levou a essa ruptura?
Foi um processo longo. Desejei muito a fonoaudiologia e sonhei muito com a profissão, mas ela ficou um pouco apenas no querer. Quando tentei viver da fonoaudiologia, já estava com minha filha nascida e isso me limitou um pouco profissionalmente. Nessa limitação, fui fazer uma pós-graduação e abri uma clínica, após um ano de formada, em parceria com uma fisioterapeuta. Daí surgiu a oportunidade de trabalho na área neurológica, que era algo que eu não gostava muito de atuar. Minha motivação diminuiu e fiquei um pouco decepcionada com meu trabalho. A linha de especialidade que eu desejava era a audiologia, mas precisava de investimento de capital em aparelhos. Como demorei muito no meu planejamento e como já tinha passado uns três anos, comecei a me desmotivar. Fui ficando parada. Meu marido falava que eu ganhava pouco e me chamou para trabalhar com ele. Ainda persisti durante sete anos.
Como se deu a escolha pela podologia?
Fui trabalhar com o meu marido em área administrativa. No entanto, isso é bom quando se tem uma saúde financeira boa. Quando você começa a viver os problemas no trabalho e a levar isso para a casa é muito ruim. Você trabalha o dia inteiro e, quando chega à noite, ainda está falando sobre os problemas da empresa. Para não acabar o meu casamento, em 2008 comecei a pesquisar na internet, ver sites de outras empresas. Fiquei pensando que tipo de negócio eu poderia montar. Como eu já tinha facilidade e habilidade com manicure e pedicure, porque com 12 anos eu fazia mãos e pés da família, me concentrei nas áreas de estética e de beleza. Foi quando se abriu um leque para mim. Mas nunca pensei que isso viesse a ser a chave para a minha mudança. Me identifiquei com a podologia e comecei o curso em 2009, no Senac de Franca. Foi preciso superar um pouco aquela situação de ver meu marido ficar com os filhos à noite, enquanto eu estudava das 19 às 22 horas.
Nesse tempo de curso técnico surgiu o trabalho social que você desenvolve hoje...
Quando terminei o curso, já tinha em mente um projeto social, que foi um trabalho voltado para o atendimento ao idoso. Busquei um lar em Franca, que é o Eurípedes Barsanulfo. Me identifiquei muito e procurei a instituição para saber se poderia adota-la. Eu ia lá para oferecer algo, mas quem recebia mais era eu. Ganhava satisfação, carinho, a atenção e o sorriso que eles me davam. Para mim não tinha preço, enquanto aprendia profissionalmente. Depois de um tempo, eles passaram a vir para a clínica e agora, uma vez por ano, juntamos vários profissionais e fazemos um mutirão.
Com a mudança e a nova profissão você se sente realizada?
Sinto-me realizada, com a autoestima elevada, valorizada. Tenho respaldo de médicos em relação ao meu trabalho e tenho confiança no que faço porque ao buscar conhecimento passo a não temer o que faço. Se não sei, digo que não sei e vou pesquisar, estudar para oferecer uma resposta.
O apoio que você falou que não teve no início, em que ele se transformou?
Foi uma injeção de ânimo para continuar e não desistir. Ao contrário do que se imagina, ele me impulsionou. Foi determinante para que eu concluísse o curso, sendo que agora todos me apoiam demais. Fui trabalhando e mostrando que tinha retorno, que tinha valor. Com isso, os pensamentos foram mudando. A minha determinação em estudar, em fazer cursos, foi demonstrando para amigos, parentes e a família que era isso realmente que eu queria e que independente da opinião deles, eu não ia sair desse caminho.
Você acredita que foi ajudada pelo momento atual, em que as pessoas, sobretudo homens, vêm dando mais valor às questões estéticas, de cuidado com o corpo?
O que influencia na venda do meu serviço é o bem estar que ele oferece. A maioria dos homens que atendo é ocupada e muito ativa. Mas eles acabam arrumando tempo para vir à clínica se cuidar. Consigo fidelizar o cliente com a qualidade do meu trabalho.
Você mencionou que tem respaldo de médicos em relação ao seu trabalho. O que quis dizer com isso?
O que ocorre é que há alguns podólogos que prescrevem medicação, o que é errado. Isso é da área de atuação do médico. O podólogo é o elo junto ao dermatologista, mas ele não pode fazer todo o tratamento achando que vai substituir o dermatologista. E o médico, por sua vez, tem que entender que ele precisa do profissional, porque certos procedimentos ele não vai fazer, mas nem todos vêm assim. Alguns dermatologistas pensam que somente o remédio vai resolver o problema e que os podólogos não têm condição de orientar. Estou conseguindo quebrar essa resistência, obtendo respaldo de muitos dermatologistas para o meu trabalho. As duas profissões são importantes. Dos atendimentos que faço, em torno de 40% eu encaminho para o médico, porque sei que é o melhor caminho. Os outros 60% são casos mais simples e que podem ser atendidos aqui na clínica mesmo.
O que o prêmio do Sebrae significou para o seu trabalho?
Foi uma surpresa que encheu de novas perspectivas. Concretizou meu sonho de luta, de persistência, de teimosia. Muitas vezes tive pessoas dizendo que não ia dar certo, mas continuei. O prêmio serve para confirmar minhas determinações, meus desafios e meus cálculos de risco. Poderia estar satisfeita como estou, mas a gente não pode ficar na cadeira achando que está tudo certo. No mundo da prestação de serviço é preciso inovar. Não é o preço que traz o cliente, mas a qualidade do que você oferece.
Você tem algum plano futuro para o seu negócio?
Vivo pensando em coisas novas. Tenho vontade de montar uma barbearia, em que o cliente pudesse não apenas cortar o cabelo e fazer a barba, mas fazer uma limpeza facial, ter um atendimento diferente. Quem sabe uma sauna. Mas ainda estou tentando descobrir se Franca tem potencial para algo desse tipo.
Que recado você deixaria para alguém que esteja querendo mudar os rumos profissionais?
Acho que o mais importante é nunca deixar de sonhar. Independente da idade e do poder aquisitivo, é possível conseguir a mudança. É preciso ser determinado e planejar as mudanças. Se for preciso voltar a estudar, que volte. Recomeçar em um novo emprego, juntar um capital? Faça isso. Atenue a ansiedade interna e planeje. O importante é ir para a ação e não ficar apenas no papel. Buscar informação e conhecimento é fundamental. Se for preciso estudar durante dois anos, isso é pouco e passa rápido.
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