Entre os religiosos encontramos a espiritualidade; entre os que se autoproclamam ateus; e, também, entre aqueles que não seguem seitas, e cultivam o sagrado sem, contudo, frequentar igrejas.
Seita quer dizer “secionar, dividir, sectar”; no latim, “seguidor”, como quem segue uma doutrina, um sistema, uma ideologia.
Não gosto de sectarismos. Muitas vezes, as crenças e ações individuais, ou grupais, institucionais, levam a cisões que, não por acaso, chamamos de “igrejinhas” - grupos que não somam, não multiplicam, não criam novas galáxias possíveis de sentimentos e pensamentos. Pessoas e grupos circulam em órbitas diferentes, mas pertencem, queiram ou não, a um funcionamento cósmico, possível de ser sincrônico.
Não é fácil ficar sem seita, meio sem eira nem beira. Desconfortável posição, mas, se busco a espiritualidade, sei que é uma busca que desconforta. A espiritualidade impõe exigências, disciplinas, e desafia constantemente o status quo, o modo de vida habitual, acomodado, de quem não duvida, perigosamente, de sua integridade ética, espiritual. Qual é o perigo ao não duvidar de si, ou da seita? Acreditar que se possui a verdade absoluta, como se herdeiros de um divinal poder.
Circunstancialmente, é possível ser espiritual. Mas, aqui e acolá, é possível detectar facetados modos de ser: materialista, dogmático, narcísico, bizarro, mesmo perverso, em flashes perturbadores. Há que ter zelo pelos valores juramentados, aos quais alguém se propõe seguir, interiormente (a vigília do Pequeno Príncipe, de Éxupéry).
A Ética exige um lento processo de fina depuração interior; construção lenta que desafia a maioria, como a dos grandes líderes espirituais. As imperfeições humanas, resistentes à conquista da espiritualidade, comparecem em oscilantes vaivens e são constitutivas de sua qualidade e essência, de seu aroma.
A espiritualidade é nuançada em graus, como a normalidade/loucura. Não existe o louco puro, nem o normal puro. Assim como não há aquele totalmente espiritualizado (“santo”) nem totalmente sem espírito (“besta fera”). Humanos mesclam complexamente graus diferentes de tempero, entre espiritual/não espiritual, e passamos por duras provas.
Nesse sentido a espiritualidade é uma criação pessoal, qual a poesia. Querer não é poder, nessa busca. Podemos buscar e achar, mas não dominar e controlar as pontes e caminhos do entremeio. É permanente busca. É bobear e as ervas daninhas matam a rosa e a roseira e a ideia e a memória da roseira também.
Ouvi o ator Ângelo Antônio, na GNews, tentando falar sobre a falta da espiritualidade na sociedade, mas ignorado pelo grupo de jornalistas que seguiam a pauta de guerras, conflitos políticos, etc. e tal. A espiritualidade habita outro planeta: ele estava ali deslocado, esquecido, embora fosse o entrevistado do dia. Em tristonha fisionomia, recolhido.
Quando a espiritualidade entra na órbita – invisível - do extraordinário e acontece um encontro afortunado, como o do aviador com o Pequeno Príncipe, na solidão do deserto, dela nos tornamos sedentos, famintos, saudosos.
Arriscado traduzir - em palavras - o sentido maior da espiritualidade: sua misteriosa fonte (sempre perdida, sempre recuperada) transluz - surda e muda mente.
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
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