Uma velhinha inconveniente


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Há dois dias, em Brasília, ao apresentar o seu pacote anticorrupção — uma tardia resposta às manifestações que levaram mais de 2 milhões de brasileiros às ruas de centenas de cidades do País, no último domingo —, a presidente Dilma Rousseff (PT) disse que no Brasil a corrupção era “uma senhora idosa”, com a qual convivemos há dezenas e dezenas de anos. Uma constatação óbvia que, partindo da presidente da República, aponta para a total incapacidade do governo federal em empreender verdadeira cruzada contra este flagelo que, além de desviar o dinheiro dos impostos pagos pelos brasileiros, priva os menos favorecidos de serviços públicos de qualidade, principalmente nas áreas de saúde e educação.
 
No final das contas, o pacote da presidente só apresenta uma proposta original. As demais já estão em tramitação no Congresso Nacional há vários anos e, durante todo o período, não houve qualquer pressão do Planalto para que deputados e senadores, que formam a ampla base aliada do governo há pelo menos três mandatos, colocassem em votação e aprovassem os projetos. Além disso, o governo enfrentará mais um abacaxi, diante da proposta do PSDB, segundo a qual partidos beneficiados pelo dinheiro da corrupção tenham o registro cassado. Caso o julgamento da Operação Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal) repita o que ocorreu no Mensalão, Dilma veria os três maiores partidos de sua base aliada (PT, PMDB e PP) sofrendo para explicar que focinho de porco não é tomada, tentando evitar uma extinção.
 
Ontem, o juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato, afirmou que o combate à corrupção é o “único objetivo comum” em uma democracia plural, em referência aos protestos realizados no País no último fim de semana. O magistrado disse acreditar que a corrupção não é insuperável e que é possível vencê-la com “apoio das instituições democráticas”. E isto não ocorreu até agora por absoluta falta de interesse, quando se sabe que exigir da classe política uma posição firme para aprovar instrumentos capazes de coibir a corrupção no País não é fácil, uma vez que as investigações da Polícia Federal mostram que há muito político envolvido no recebimento de propinas dentro do esquema armado na Petrobras.
 
Caso não haja vontade política e interesse em mudar o quadro, as propostas do governo federal para combater a corrupção continuarão dormitando nas gavetas do Congresso. Há muitos envolvidos e interessados em deixar o assunto como está, torcendo para que o STF (hoje formado majoritariamente por ministros indicados nos governos Lula e Dilma) não seja tão rigoroso quanto no caso do Mensalão. É mais um assunto em que os maiores interessados — os cidadãos brasileiros — não têm como interferir. A estes, resta voltar às ruas, protestar e exigir respeito às suas reivindicações. Quem sabe assim o País consiga acabar com este verdadeiro câncer, que corrói cofres públicos e sonega benefícios àqueles que mais necessitam e trabalham duro.
 
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