O engasgo


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Acontece que Maira tinha essa mania de engolir a vida.
 
Fosse coisa boa ou coisa ruim, fosse triste ou alegre, enfim, ela ia engolindo sem mastigar.
 
Vez por outra alguma emoção entalava em sua garganta e ela engasgava. Sem delongas tinha febre alta de deixar na cama. Para sarar somente sopa quentinha.
 
A parte boa era isso: sopa quentinha de macarrão de letrinha, com batata, cenoura e caldinho de feijão. Que delicia!
 
Um dia, sabe-se lá por que, Maira ficou muito magoada e a bola em sua garganta cresceu, parecia-se com um gato engasgado.
 
Ficou amuada e sem conversar com ninguém, só queria esperar passar. Nada deu certo e seu mal estar só crescia.
 
A barriga de Maira começou a inchar e ela achou que ia explodir. Então resolveu falar com seus pais sobre tudo o que da vida vinha engolindo e as coisas que sentia em seu coração.
 
A menina começou a falar, parecia que tinha aberto uma torneirinha e despejava frase atrás de frase. Começou pelas coisas boas e por sua boca saiam borboletinhas brancas bem miúdas, flores e outros pensamentos leves e perfumados, na sua boca as palavras tinham gosto de chiclete.
 
Falou também sobre tudo que a chateava, e enquanto falava pulavam sapos gordos e feios de sua boca, aqueles que a estavam engasgando. Tudo o que dizia em meio a um choro incontido tinha gosto de meleca de nariz, mas depois de falado já não mais lhe fazia mal.
 
Depois de falar sem parar por algumas horas, a garotinha ficou leve novamente, sem qualquer sintoma de uma possível explosão, nada de febre ou angústia.
 
Maira ficou feliz, calçou seu tênis velho e foi para o quintal pular corda.
 

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