No último domingo, o governo federal teve a resposta que, aparentemente, ainda tenta ignorar: a insatisfação popular não atinge apenas a “elite branca paulista” ou os que não votaram na presidente Dilma Rousseff (PT). De acordo com o que foi acompanhado durante todo o dia pelos órgãos de imprensa — emissoras como Globo News e Record News transmitiram em tempo real —, dois milhões de pessoas( 1 milhão só em São Paulo) foram às ruas nos 26 Estados do Brasil e no Distrito Federal de acordo com estimativas feitas pelas PMs locais. Um número muito acima dos registrados pelas Centrais Sindicais com suas passeatas ‘em defesa da Petrobras e da presidente Dilma e contra o golpismo’, na sexta-feira, principalmente quando se sabe que as principais delas, em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte, tiveram ônibus contratados para transportar manifestantes pagos.
Embora os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (das Relações Institucionais) tenham tentado descaracterizar a força da movimentação, durante entrevista coletiva na noite de domingo, não há como fugir à constatação de que a sociedade brasileira está cansada e transformou o protesto -- que repercutiu no mundo todo -- na maior manifestação popular de nossa história, depois dos comícios das Diretas-Já, ainda no início da década de 1980, e as passeatas dos caras pintadas que pediam o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, mais de uma década depois.
O governo, mais uma vez, foi pego de surpresa com o ato, convocado através das redes sociais. Não houve protestos apenas em capitais, mas também em 185 outras cidades do País, incluindo Franca. É mais um ato de civismo que só teve paralelo recente em junho de 2013, quando a população brasileira foi às ruas para cobrar reforma política e o fim da corrupção. Assim como naquela época, agora o Planalto escala ministros para prometer projetos contra a corrupção e o Congresso volta a defender a reforma política. É preciso que a mobilização continue para que os resultados não repitam os de quase dois anos atrás: a classe política se acomoda, abandona o discurso e retoma as práticas ilegais — e imorais -- de sempre.
O brasileiro deixa bem claro que está aborrecido e não suporta tudo o que aí está. Não aceita mais pagar impostos sobre a sua renda e sobre o consumo — nossa carga tributária é uma das maiores do mundo — sem que este dinheiro retorne em serviços públicos de qualidade. A corrupção, escancarada com a Operação Lava Jato da Polícia Federal — que começou despretensiosa e hoje aponta para a existência de um esquema criminoso que desviou dezenas de bilhões de dólares da Petrobras —, continua sendo um câncer a envolver a administração pública brasileira. Este tumor precisa ser extirpado sem demora, antes que a situação degringole e jogue o País — e suas instituições — num buraco de onde será difícil sair.
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