Entre seis e oito mil pessoas estão sendo esperadas hoje, a partir das 9h30, na Praça Nossa Senhora da Conceição, em Franca, para participar das manifestações que pedirão o impeachment da presidente Dilma Roussef (PT), a exemplo do que vai acontecer no restante do País.
O movimento em Franca, que começou a ser pensado perto de 20 dias atrás, usou as redes sociais como forma de convocar os manifestantes e se espalhou. Um dos idealizadores é o professor de matemática do Unifacef, Heleno Paim, 69. Nesta conversa, ele explica de forma direta os motivos que o levaram a se engajar no protesto. Afirmando não ter relação partidária com nenhuma sigla, Heleno Paim deixa, no entanto, transparecer sua simpatia pelo PSDB, em especial por Aécio Neves, enquanto foi muito duro todas as vezes em que se referiu ao PT, à presidente Dilma e ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. ‘Eu abomino o PT. Eu estou aqui dando a minha cara para bater porque quero ver o Partido dos Trabalhadores reduzido a nada’, disse ele. Nesta entrevista, gravada em sua residência, Heleno disse que rechaça o rótulo de elite branca, que trabalhou por quase cinco décadas seguidas para ter um salário um pouco melhor que o da maioria da população e que está participando dos protestos não por ele, mas pelo neto que ainda não nasceu. Para ele, apenas o povo pode mudar os rumos da política brasileira e desse governo, que, em sua opinião, foi eleito sobre mentiras e que, apesar de legal, não tem moral. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O que está sendo esperado para hoje exatamente?
Acho que teremos entre seis a oito mil pessoas no Centro. Somos um grupo incipiente, que nasceu da conversa de um com o outro, sem esquema nenhum. No entanto, a aceitação é muito grande. No domingo passado, panfletei na praça e de 400 panfletos houve duas rejeições apenas. Um eu acho que era petista mesmo. Outro foi porque ouviu a palavra ‘Dilma’ e não quis nem saber.
Como e quando isso começou em Franca?
Mais ou menos 20 dias atrás. Tenho mais de dois mil alunos na minha página no Facebook e vejo que um fala, outro posta que vai ter no Brasil inteiro. Foi quando eu disse que queria ajudar e fomos nos organizando. Não temos nenhum compromisso com esses movimentos que estão por aí. Passe Livre, esses revoltados, nada disso. Somos apenas nós. É um movimento aberto, sem filiação, sem carteirinha de partido ou sindicato e associação, pedigree, nada.
Qual a sua orientação política?
Orientação político-partidária eu não tenho. Sou centro-esquerda. Social-democracia.
O senhor acredita que mesmo os eleitores que votaram na presidente Dilma vão participar?
Acredito que sim, porque ninguém gosta de ser tapeado. É como se todo mundo estivesse caindo no conto do bilhete. Você percebe a revolta das pessoas com esse pronunciamento dela no dia 8. A revolta foi grande porque ela veio com a mesma ladainha, a mesma mentira. É pior do que perder dinheiro.
Se fosse possível, quais argumentos o senhor usaria para me convencer a participar do movimento?
A abordagem que eu faria começaria com a pergunta: você está contente com esta situação? Já estou velho, com 69 anos. Não estou aqui por minha causa. Meu neto vai nascer em maio e eu não gostaria que ele vivesse num país dominado por ‘esquerdopatas’, bolivarianos. Estou lutando por ele. Por isso, que tragam todo mundo. Estou lutando por um Brasil diferente. O descontentamento é muito grande. Tenho muitos questionamentos e se tivéssemos três horas para conversar aqui daria para apresentar todos eles em relação ao governo petista. A forma, a ideologia que eles estão implantando, o risco que temos de perder nossa liberdade, incluindo a de imprensa, a exemplo do que existe em Cuba e na Venezuela. E há vários outros problemas, como a nossa desastrosa política externa.
O que o senhor teria a dizer sobre a política externa brasileira?
É uma política ideologizada, voltada para os nossos irmãos bolivarianos. O Brasil perdeu sua inserção mundial. A tradição sempre foi defender os interesses da pátria, mas agora está servindo para defender interesses ideológicos. Aquele ‘índio’ da Bolívia (presidente boliviano Evo Morales) invadiu uma unidade da Petrobrás e o Lula passou a mão na cabeça dele. Olha o exemplo daquela refinaria em Pernambuco, a Abreu e Lima, construída com a Venezuela. Foi decidido como quem está conversando numa mesa de bar. Está tudo errado.
Como cidadão, o que empurra o senhor para as ruas?
Sinceramente é a questão da degradação moral que estamos vivendo. Não apenas em relação ao dinheiro público, que é uma aberração. Os valores estão sendo pervertidos. A mentira grassa. Mentem descaradamente. E tem a ver com o meu dinheiro. Pago muito imposto, então é dinheiro meu que está sendo roubado também. Não estão garantindo o desenvolvimento do País, estamos em uma situação economicamente caótica, temos um governo que está sem saída, sem moral para sair à rua.
O senhor não vê nada de aproveitável feitos nos últimos 12 anos?
Esse programa social, o Bolsa Família, tem sua utilidade, afinal não podemos deixar um conterrâneo nosso morrer de fome, mas o governo faz disso um curral eleitoral.
Qual a porcentagem da população que tem conhecimento sobre a engrenagem que cerca um processo de impeachment?
Infelizmente, como a nossa educação é um setor falido, não é algo que as pessoas saibam. Eu, como um dos organizadores, dentro do espaço que terei para falar, vou tentar orientar o povo nesse sentido. O impeachment é um processo. Não vamos derrubar a presidente na segunda-feira; é demorado. As adesões vão acontecendo, mas isso depende mesmo é do povo. Dizem que Deus é brasileiro, o que eu questiono um pouco, senão não teria nos dado governos tão ruins. Se Deus for mais brasileiro ainda, ele vai levar o Temer (vice-presidente Michel Temer - PMDB) junto e reiniciar o jogo.
O senhor acredita que exista espaço entre as instituições para um processo dessa natureza hoje?
Só acredito na força do povo. Se ele colocou, ele pode tirar. Se nós formos às ruas aos milhões, ninguém vai conter. As instituições vão se moldar a isso. O povo é quem manda.
A corrupção política não é exclusividade desse governo. Por que então nunca se levantou contra o mandato de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo?
Acho que é uma questão de conhecimento. O povo, mesmo sem educação, vai tomando conhecimento das coisas. As mídias estão permitindo isso. Todos roubaram eu acho, mas não tanto como neste. O PT turbinou a roubalheira. A coisa degringolou e virou uma forma institucional de usar nosso dinheiro para se montar no poder. Não tem como ter sido pior ao que vemos agora. Não dá para comparar.
Para alguns analistas, o panelaço ocorrido durante o pronunciamento da presidente, domingo passado, teria sido uma revolta ‘dos terraços gourmet’, já que foi verificado nos bairros mais ricos e não na periferia. Como o senhor vê essa afirmação?
Olha, é sabido que as redações dos jornais estão cheias de comunistas, apenas para começar.
Comunistas?
Sim, comunistas, esquerdopatas. Tem de tudo. Tem uma parte da mídia e da imprensa que come na mão do governo.
Mas o senhor acha que ainda podemos falar em comunistas hoje em dia?
O Niemayer (arquiteto Oscar Niemayer) não morreu com mais de cem anos sendo comunista? Esses, eu ainda respeito, porque não abandonam suas convicções. Mas tem gente que ainda acredita no ideal comunista; tenho amigos. A mídia faz o jogo do governo, sim.
Há três semanas, Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-ministro da Economia do governo FHC, disse que o que está acontecendo é que há um ódio contra o PT e contra a Dilma. Trata-se, portanto, de um movimento para mudar o País ou apenas para interromper esse governo?
Abomino o PT. Estou aqui dando minha cara para bater porque quero ver o Partido dos Trabalhadores reduzido a nada. Quero ver o Lula preso na Papuda (Presídio localizado em Brasília). Se eu morrer vendo o Lula preso, vou mais tranquilo. Tudo o que eles (PT) fazem é para se manter no poder. Então, quero ver o Brasil livre disto. Não estou dizendo que outro partido preste, mas este fez muito mal ao País.
Na sua opinião, Aécio Neves teria sido uma melhor escolha nas eleições de outubro?
O Aécio cresceu muito porque ele pegou o descontentamento das ruas, em 2013, e se tornou uma liderança. Mas acho que ele não está fazendo a oposição que se esperava que ele fizesse. O presidente da Câmara (Eduardo Cunha - PMDB), por quem eu não nutro nenhuma admiração, está muito mais na oposição que o Aécio. Não sou ‘aecista’, mas votei nele.
O senhor não considera a legitimidade desse governo?
Esse governo é legítimo? Pode até ser, mas no meu ponto de vista ele não é moral, porque se elegeu com mentiras, com blefes. Infelizmente a diferença foi mínima. Os pouco mais de 3% não representam nada em uma eleição geral. O resultado mostrou uma divisão geográfica que quem votou na Dilma foram aqueles que, infelizmente, além da pobreza, são vítimas da falta de educação.
Quem o senhor espera que vá comparecer ao ato hoje?
Vocês vão estar lá e vão fotografar. Vocês vão ver que é gente do povo. Gente bonitinha, mais acertada socialmente vai ter, mas a massa será do povo. Não sou elite e não estou na elite. Trabalhei três períodos por dia e vão me chamar de elite só porque meu salário é um pouco melhor que o da maioria? Foram 48 anos de magistério lutando para que o povo não fosse feito de massa de manobra. Não sou elite e nem estou comprometido com ela.
É sabido que o povo brasileiro, seja por uma questão de cultura, tradição ou falta de disposição, não tem por hábito protestar, como acontece com mais frequência em outros países. Se hoje aparecerem 200 pessoas na Praça Barão, durante o protesto, o que vai acontecer?
Se 200 pessoas lá forem, realmente vou botar a viola no saco e vou me conformar. Não é possível pensar nisso. Estou em defesa deles, mas se eles mesmos não quiserem, não posso fazer nada. Talvez mudar para outro país, para o Chile. Mas estou indo não por mim, volto a dizer. Estou indo pelo meu neto, que ainda nem nasceu.
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