É uma casa como tantas outras da rua Virgílio Polo, na Vila São Sebastião, em Franca. Uma casa comum, com fachada simples e vizinhança curiosa. Atulhada de pequenas coisas, como qualquer família guarda ao longo dos anos. Num dos quartos, armário, tapete, escrivaninha. Nas paredes, não quadros, mas partituras de música clássica.
Maísa Alves de Souza não quis jogá-las fora. Achou que melhor do que uma gaveta ou lata de lixo, as seis folhas estariam lhe fazendo companhia, como numa vigília em que pudessem testemunhar o destino que vai se formando naquela casa, naquele quarto.
Muitos mais que 9.400 quilômetros que separam a Vila São Sebastião da Alemanha. São milhares de sonhos nesse caminho, muita dedicação e perseverança nesse meio tempo, muita barreira quebrada, apesar da origem. Parece que Maísa, 25, desconhece o oceano inteiro que existe entre a rua em que mora e a concretização de suas vontades.
No quarto, esse das partituras na parede, o som que sai dali durante oito horas diárias, religiosamente cumpridas em pedais e teclas, não é comum. O piano Fritz Dobbert, comprado por R$ 3.500 emana sons pouco conhecidos da maioria dos vizinhos.
Maísa aparentemente fala pouco. E quando fala é pausada, tímida. Recebeu a reportagem em sua casa, interrompeu as aulas e falou durante quase 50 minutos, durante uma manhã, sobre as coisas que conseguiu realizar em sua vida nos últimos anos, sobre os sonhos que tem, sobre os objetivos que quer alcançar. E pela força demonstrada, não há porque se duvidar de que serão alcançados. Maísa quer ser pianista concertista.
Sua história com a música começou na infância, aos nove anos, quando o pai, Célio, um pequeno comerciante, a presenteou com um teclado. A peça está intacta até hoje e fica de frente para o imponente piano. A família são os dois e mais a mãe, Lena, uma costureira.
Na pré-adolescência, entre 11 e 12 anos, começou a ter as primeiras aulas práticas de música com a professora Maria ¶ngela Pires, que lecionava Educação Artística na escola em que estudava. Mais tarde, com uma bolsa da extinta Casa dos Músicos, no Centro de Franca, a paixão pelo instrumento passou por um aprendizado mais profissional, que durou quatro anos, mas deu uma cessada, porque, tendo que trabalhar e estudar, aos 16 anos, não conseguia conciliar horários e tarefas. Saiu da escola, já pensando em voltar. Não foi possível voltar. A Casa dos Músicos fechou e Maísa passou, então, a ter aulas particulares. Depois, veio o tempo da faculdade de Pedagogia, em que se formou, e ela interrompeu as aulas de piano novamente. Diploma, emprego, família, tudo o que a maioria das pessoas quer. Mas Maísa sentia falta da sua música, das partituras.
Debruçada nas teclas
Depois do trabalho (ela foi funcionária do Magazine Luiza durante oito anos) sua jornada se estendia até as 22 horas, com mais aulas. Era nesse intervalo de horário que o piano da professora estava desocupado. O emprego, que fez questão de lembrar como foi importante, garantiu as economias suficientes para que pudesse apostar em planos mais ousados.
Comprou o piano, só que para estudar a música que escolheu para projeto de vida, precisava também aprender alemão. Mais uma vez, a disciplina e as economias permitiram que Maísa, sozinha, deixasse Célio e Lena e a Vila São Sebastião para passar um mês em uma universidade de Bayreuth, na região da Baviera, em agosto de 2013. “Era o dinheiro que eu poderia usar para comprar uma moto ou um carro, por exemplo. Mas a vida é feita de escolhas”, disse ela.
Naquele país, berço dos principais mestres da música que hoje ela estuda, pôde conhecer lugares importantes, mas suspirou mesmo ao falar da catedral em que Johann Sebastian Bach (1685-1750) tocou. Mais de dois séculos e meio depois, lá estava a brasileira de fala mansa “imaginando ele sentado ali”. Voltou com a imagem positivamente metódica dos alemães e continua estudando a língua em Franca, importante para quando for tentar uma bolsa de estudos no futuro.
Apoiada pela família, ela hoje se dedica integralmente aos estudos de piano. É uma rotina puxada, de absoluta disciplina e dedicação, que começa às 8 horas e vai até o final da tarde.
Com frequência participa de cursos, encontros e festivais em São Paulo e Tatuí, no interior paulista, aumentando a rede de contatos e aprimorando os conhecimentos.
O instrumento que escolheu, assim como tantos outros, requer anos de estudo. De forma geral, mais de uma década, no mínimo, é necessário para uma formação básica em piano. Com seis anos, Maísa resumiu seu estágio: “É como se eu estivesse passando do ensino fundamental para o ensino médio”.
‘Novo integrante’
O Fritz Dobbert grandão e austero chegou à casa de Maísa sem testemunhas, entrando sem que os vizinhos vissem, num horário em que ninguém estava na rua. Para garantir que o som repetitivo das aulas não incomode, as janelas estão parcialmente vedadas, numa tentativa de diminuir a reverberação.
Sobre o instrumento, um metrônomo, que ajuda a estudar dando a cadência necessária e é um grande aliado: um aparelho que mede a unidade relativa do ar e a temperatura. “Com baixa umidade ou alta temperatura o piano começa a sentir muito, até mesmo desafinando”.
A conversa entra na parte final, e parece uma imposição natural querer saber o que a questão financeira poderia mudar em sua vida, já que ter ou não mais dinheiro, pode fazer diferença, encurtando etapas, permitindo que mais experiências sejam vividas em menor tempo. Maísa respondeu, mas o assunto ficou subentendido: “Ficamos esperando tanto para quando tivermos dinheiro, recursos. Ser pianista foi minha prioridade e eu abri mão de algumas coisas para conseguir isso”, disse ela. “Acredito que quando a gente tem o desejo, acaba encontrando soluções, mesmo que provisórias. Não podia ficar parada esperando que alguma coisa acontecesse e fui fazendo conforme as minhas condições”.
O trabalho contínuo e repetitivo trouxe com ele uma vida mais solitária e reservada. Ela confessou que não tem recebido tantos amigos em casa, esforçando-se para dosar seus horários com algum lazer. Seus sonhos são simples e grandiosos ao mesmo tempo: viver da música, buscar uma faculdade na área e fazer algum intercâmbio, de preferência na Alemanha, país que, ao que parece, a conquistou de vez, mas o principal ela revelou no final. “Sonho em um dia me apresentar no Festival de Inverno de Campos do Jordão. Já pensou, um dia tocar na Osesp?”.
O festival de Campos do Jordão é um dos principais do Brasil, assim como é a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. “Gosto de enxergar o que já fiz, mas tenho muito a conquistar ainda. Sinto que, para mim, foram realizações importantes, mas o caminho é longo. É uma caminhada permanente”.
Que ninguém duvide, em poucos anos, do título desta matéria.
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